quarta-feira, 31 de agosto de 2011

O indiscreto charme da classe média

Guerra na Líbia? Fiquei sabendo, na Líbia ou no Libano? Não sei. Só espero que isso não aumente mais o preço da gasolina. Se bem que...subindo ou não subindo, a gente paga do mesmo jeito. Andar de ônibus ninguém merece.

E esses escândalos de corrupção pelo Brasil? Político é tudo igual mesmo, nesse país todos eles roubam e não acontece nada. Já desisti. Se eu votei nas eleições? Votei. Não conheço exatamente a historia daqueles nos quais votei, o que fizeram ou deixaram de fazer, mas sempre aparecem nos jornais cobrando ética do governo. É do partido que meus pais votaram e ainda votam, aí eu votei.

Não tenho culpa pelos problemas do país. Eu trabalho, ando na linha, não roubo nem faço nada disso. Essas crianças em São Paulo, esses marginais que assaltaram as lojas e criaram caos até no Conselho Tutelar. Isso é má educação, os pais não educam e vira isso aí, marginal. E dá pra educar muito bem uma criança com o bolsa esmola que o Lula deu.

Se cometemos delitos? Não diria que são delitos, mas umas escapadinhas a gente dá, ninguém é de ferro. Eu jogo lixo na rua, confesso. Paro em fila dupla, porque é ruim andar demais pra estacionar o carro pra pegar meus filhos na escola. Eu até paro nesses estacionamentos que cobram R$10 a hora. Claro que é caro, mas tem outro jeito? A gente acaba pagando tudo mesmo...

E me preocupo com o País sim! Mas quem tem que cuidar do país são os políticos, é pra isso que a gente vota neles. Não sei como o Brasil cobra tanto imposto da gente e não melhora. Aliás, imposto é um absurdo nesse país, não acha? Ainda bem que acabaram com a CPMF. Era imposto o quê? “Progressivo”? Não, não sei o que é isso, mas sendo imposto é bom que tenha caído.

Problema do dia-a-dia é mais o trânsito mesmo, do resto não tenho do que reclamar. Trabalho o dia inteiro, volto pra casa e sigo adiante, até sabe-se lá quando. E o trânsito nem é tão problema assim, apesar das duas horas pra ir e duas horas pra voltar, chego em casa e esqueço. O problema são esses corredores de ônibus que reduziram uma faixa para os carros. Me incomoda mas...a gente se acostuma, né?

domingo, 7 de agosto de 2011

Dia do Orgulho Hétero. Pra que serve isso?

Não dá pra acreditar, mas é verdade... é, conta até dez, segue a vida...

Em mais um delírio contra o Estado Laico (você viu algum por aí?) , Carlos Apolinário (DEM - confira aqui, São paulo e Rio são os maiores empregadores desse partido em demorada extinção) mandou um projeto pra câmara dos vereadores de São Paulo para comemorar o Dia do Orgulho Hétero. Nesse dia, a paróquia da Câmara deu até quermesse.

Deprimente? Deprimente é morar num dos bairros onde o bendito teve maior votação. Deprimente é o argumento religioso para justificar o projeto:
"A criação do Dia do Hétero não simboliza uma luta contra a figura humana dos gays, e sim contra aquilo que considero que são excessos e privilégios".
De hétero mesmo não tem muita coisa neste argumento, reparou? Ele não quer saber é de privilégios para gays. Tenho mais uma frase brilhante do seu Carlos:
"Tiraram Jesus, tiraram CUT (Central Única dos Trabalhadores) e mantiveram parada gay. Mas se pode parada gay, por que não pode as outras? Não tenho nada contra o evento dos homossexuais, [não tem mesmo, o cabeleireiro dele é gay...] é direito deles.Mas em muitos casos eles não têm buscado direitos, e sim privilégios"
Um dia oficial sempre quer dizer alguma coisa. Mesmo assim, seria absurdo um religioso cristão, que organiza sua agenda por meio de um calendário que conta os anos a partir do provável nascimento de Cristo, sinta invejinha de uma passeata. Mas desde quando político dá ponto sem nó?

Lembra da PLC 122, hoje Lei Alexandre Ivo, que pretende criminalizar a homofobia tal qual se faz com outros preconceitos? Esse é o privilégio do ao qual se referem o vereador - por ser religioso - e uns liberalistas - por serem contra um suposto favorecimento do Estado em relação a determinada classe de cidadãos.

Até o Magno Malta já entendeu, parece, mas eu trago estatística pra mostrar que não é uma questão de privilégio, mas um problema crescente para a segurança e saúde públicas.
Os números da estatística foram tirados de notícias de jornais, ou seja: a conta pode ser muito pior, já que morte de homossexual (desconhecido) não vende, e pauta repetitiva não costuma dar cobertura sempre.

Na última década, 1429 foram vítimas fatais da homofobia. Dá mais que um pra cada três dias, na conta mais otimista. Não é um privilégio. É que nossa sociedade ainda não aceita os homossexuais: os hostiliza nas ruas, restringe sua imagem e seus atos nos meios de comunicação. É uma questão de direito a identidade, que lhes temos negado até hoje.

Quando aprovamos um "dia do orgulho Hétero", dizemos: não queremos que tenham mais direitos, queremos as coisas como estão. "Já deixamos vocês se casarem (como se isso fosse alguma gentileza), não venham com essa de discriminação."

E, por irônico que possa parecer, a única possibilidade dessa sandice não se confirmar é o prefeito vetar o projeto. Passado despótico ele tem. Afinidade com a causa também, supõe-se. Mas até quando as coisas são favoráveis, ele já dá sinais de que vai pisar na bola...

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Salário Mínimo e contas que não fecham

Talvez pela gorda ociosidade das férias letivas, este post falará sobre trabalho e salário.
Um pouco de política tangível, pra não ficar falando apenas de quem é patrão de si mesmo.
Visitei por estes dias os sites do DIEESE, IPEA e IBGE (se as siglas te deixarem curioso, clique no link), apanhei um pouco, e aproveitei os dados da pesquisa da minha amiga Ana Helena Ribas para fazer estes gráficos bonitinhos.

clique na imagem pra ver alguma coisa
Pois é, segundo o DIEESE, pra se manter uma família de três indivíduos adultos, ou de dois desses indivíduos, mais duas crianças (que consumam o equivalente a um indivíduo adulto) são necessários, no mínimo R$2194,76. Isso equivale a quase 4 salários mínimos, independente da cidade.
A relação com as cestas básicas também é crítica. Pra conta ideal, ela deveria representar no máximo 12% do orçamento familiar. No Paraná, estado onde o salário mínimo é o mais alto e a cesta básica é a mais barata, a cesta básica consome 38% dos recursos familiares. Desnecessário dizer como ficam comprometidas as outras necessidades vitais que Constituição exige que o salário mínimo assegure ( além de alimentação, a Carta também exige moradia, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, além de cobrar que o salário seja reajustado periodicamente, preservando o poder aquisitivo do salário).
Desde o início do plano Real, dá pra conferir no link do DIEESE, é evidente que o texto da Constituição é conversa. Com um mínimo de bom senso, podemos imaginar que, por mais que queiramos bancar um Estado Provedor (não tentássemos, o Estado seria inútil, ou liberal, o que dá na mesma) essa conta é muito difícil de fechar. Que 20 milhões de trabalhadores não bancam a estrutura estatal necessária pra subsidiar uma população de 200 milhões de pessoas, ainda que todo mundo fizesse muita hora extra.
Mas se o troço já é difícil, como explicar desperdícios que negritam em manchetes quais esta ou esta , uma hora dessas embalando peixes de óbvia espécie. Como alguém, eleito por pessoas que raramente possuem metade do que precisam pra custear suas necessidades vitais para tetarem fazer a conta fechar podem se dar ao luxo de esbanjar a onerosa mas insuficiente carga tributária em verbas indenizatórias e compensações de toda sorte?
Não é um apelo demagógico. É uma questão de educação e administração de recursos: se os políticos ensinarem como fazer para cumprir tudo o que a Constituição exige deles e ainda bancar suas vidas nababescas com a arrecadação percapita menor que todos os países com a mesma tarefa, convenhamos, fechar o mês com um salário mínimo vai ser fichinha.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Celebridade parlamentar e parlamentar celebridade

Novamente violando o véu da moral e dos bons costumes da classe dita politizada, nos debrucemos, com o devido respeito, sobre o grosso da matéria. Recentemente, Fábio Góis do Congresso em Foco divulgou um breve balanço da atividade parlamentar dos “deputados celebridades” no primeiro semestre de suas legislaturas. Em sua avaliação, deputados como Romário (PSB-RJ) e Jean Willys (PSOL-RJ) têm se destacado em suas atividades legislativas; assim como Francisco Everardo (PR-SP), o execrado, desprestigiado, satirizado, crucificado e tantas vezes condenado à jaula do leão, palhaço Tiririca, em proporção mais módica.

A análise é honesta e precisa sempre ser feita, se de fato louvamos a crítica aos “políticos”. No entanto é possível ir além, e comparar as atividades das celebridades parlamentares supracitadas com as atividades dos parlamentares celebridades que sempre têm voz nos compromissados jornais de horário nobre.

Dentre as celebridades que se tornaram parlamentares, pode-se observar um trabalho mais próximo das necessidades da população, fora da “sociedade política” que se instaurou no país. Romário, por exemplo, têm se dedicado a promover políticas inclusivas para pessoas portadoras de deficiência e se mostra uma figura combativa no cenário esportivo, requerendo aumento de recursos ao paradesporto e demandando explicações sobre a organização da Copa de 2014 e as sempre obscuras atividades de Ricardo Teixeira e sua CBF.

Jean Willys, “ex-BBB”, trouxe a discussão de direitos humanos às pautas do congresso. Tem batalhado pelos direitos dos homossexuais, pelo maior investimento em educação e liberdade religiosa e de expressão. É alvo de costumes higienistas, como do parlamentar celebridade Jair Bolsonaro (PP-RJ), exemplo de membro da “sociedade política”, que reina sobre nós, míseros cidadãos.

Já Tiririca tem uma postura mais tímida. Convenhamos. Entretanto não peca pela omissão, muito menos pela ausência. Já salientei a importância de sua presença na casa, e sua atividade parlamentar tem rendido mais do que qualquer um esperava. Além da grande assiduidade de Tiririca, o deputado tem representado sua classe, propondo a instituição de programas nacionais de cultura e sugerindo distribuição de material didático a alunos e educadores circenses, por exemplo.

Em contramão, muitos dos parlamentares celebridades dedicam suas atividades legislativas, seja a pormenores técnicos com a manutenção da “sociedade política”, seja à rinha partidária que tanto desvirtua o sistema representativo.

Não entro tanto no mérito dos projetos e emendas de ordem técnica e burocrática. É insuportavelmente desestimulante, para quem está fora da “sociedade política”, a leitura de solicitações de alteração de palavras no parágrafo do artigo do regimento interno de alguma subcomissão ou trâmites burocráticos assustadoramente parecidos. Muitas vezes essas solicitações são frutos da democracia, mas a emperram em sua essência.

Além da máquina política e seu burocrático funcionamento, o mal do partidarismo e suas negociatas só desestimulam o interesse pela política no Brasil. A votação da ruralista reforma do código florestal, por exemplo, foi resultado muito mais de negociações entre governo e oposição, do que propriamente de uma atenção do congresso aos impactos socioambientais da nova proposta, que não são poucos.

A diferença parece ser de postura política. Enquanto alguns veteranos enaltecem seus enfrentamentos político partidários sob as luzes dos jornais de horário nobre, há novatos como um boleiro defendendo políticas de acessibilidade, um ex-BBB resguardando direitos de minorias e um palhaço, tímido, aprendendo a legislar e apoiando projetos educacionais.

sábado, 9 de julho de 2011

"Sociedade política" e a república dos esquecidos

O ano de 2011 tem sido de fôlego adicional à engavetada democracia mundial. Durante muito tempo a sociedade civil, em geral, aceitou de bom grado as condições políticas acertadas entre certos governos e seus sócios. Hoje, porém, é possível observar um renascimento de movimentos coletivos exigindo o que Tarso Genro chamou de “democratização da democracia”.

A idéia não é nova, pelo contrário, é o fundamento da democracia de fato. Numa análise mais atenta a tratados de ciência política e consultas a pensadores como Rousseau e Tocqueville, constatamos que os movimentos coletivos pelo mundo lutam por princípios óbvios. E se o governador gaúcho usa mui habilmente essa expressão, é porque a democracia já deixou de ser democrática há algum tempo.

Temos acompanhado as revoluções árabes, encarando regimes ditatoriais e se organizando, sobretudo, via redes sociais. Levantes populares exigindo democracia, enfrentando repressão e a violência desmesurada de seus próprios governos com pouco apoio internacional.

Também o espanhol ¡Democracia Real YA!, do movimento 15M, que critica um modelo de política que privilegia uma minoria em detrimento das necessidades do povo. Com a recente crise financeira mundial, tem crescido a adesão pela Europa.

Tahrir e Puerta del Sol são exemplos mais notáveis de que, pelo mundo, diferentes povos têm questionado o regime de suas nações e procuram fazer a res (coisa) ser realmente pública. Os recentes ataques hackers no Brasil não são, nem de longe, algo parecido. Assim como movimentos exigindo redução de impostos para produtos eletrônicos, pura e simplesmente.

É preciso aproveitar mobilizações como a marcha da liberdade, e colocar em xeque a “sociedade política” e a democracia oligárquica que predomina no nosso modelo de sistema representativo. É preciso, principalmente, ressignificar a política no Brasil. Debates e atenções, por parte da sociedade civil, não devem ser exclusividades dos anos de fim par, eleitorais. É preciso agir, lembrar e trazer o poder do público também para os anos de final ímpar, época em que a democracia costuma ficar esquecida, por eleitos e eleitores, e engavetada por aqui.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

“Pelo sonho é que vamos”

As coisas que vemos são claras, entretanto exige-se um esforço distinto para observá-las com a acuidade que a matéria demanda. E não é um esforço que encerra um diferencial quantitativo, mas qualitativo, numa postura que não ignora centelhas de meias-verdades e fagulhas de abjetos interesses que um espírito menos preocupado costumeiramente deixa escapar.

O poema de Sebastião da Gama, cujo verso inaugural intitula este texto, poderia bem ser um hino de batalha daqueles que, como nós neste blog, combatem uma ainda lúgubre realidade política e social brasileira. Afinal, “comovidos e mudos” muitas vezes, pelo sonho é que vamos.

“Chegamos? não chegamos?”

Sacamos e empunhamos nossas críticas e nossos anseios sociais de nossos princípios políticos. Não são rigorosamente os mesmos, ainda bem. Contudo reconhecemos uns aos outros, em meio à fumaça e o fogo da guerra que diariamente travamos contra ‘políticos’, mídias, “a opinião pública líquida” e quimeras semelhantes. Somos frustrados muitas vezes, ossos do ofício, mas como versam os versos desse nosso hino “Haja ou não haja frutos, / pelo sonho é que vamos.”

“Basta a fé no que temos.

Basta a esperança naquilo

que talvez não teremos.”

Reconhecemos resultados nesse velejar, mas alertamos que ainda há muito a navegar. Numa terra que deu à luz as mais diversas caras, etnias, religiões, numa terra que assistiu seus filhos protagonizarem as mais diversas batalhas, aqui travamos as nossas em utopias e vírgulas, perseguindo ideais e delatando anacronismos. Conhecemos algo da nossa história e escrevemos quando a percebemos se repetir, como farsa, lembrando Marx.

“Basta que a alma demos,

com a mesma alegria,

ao que desconhecemos

e ao que é do dia a dia.”

E nesse muito ainda a navegar vamos sempre encontrar cerração, dúvidas, obstáculos do desconhecido. No entanto sabemos que nós (eu, tu, ele/ela) fazemos a nação. E por nos acreditarmos protagonistas da nossa história coletiva, gritamos pra que sejamos ouvidos. Gritamos, sobretudo, pra abafar os sedutores cantos das sereias que sempre alienaram, e ainda alienam, muitas almas brasileiras. Mas tentamos ser mais sedutores, e com a alegria (sarcástica, há que reconhecer) proclamada por Sebastião da Gama em seu poema, enfrentamos o que conhecemos e o que desconhecemos. E pelo sonho caminhamos, afinal...

“Chegamos? não chegamos?

Partimos. Vamos. Somos.”


terça-feira, 28 de junho de 2011

Poluídos e despudorados

Hoje fui acometido por uma dessas felizes inspirações que reúnem, em duas notícias aparentemente diferentes, uma análoga lógica. E não se fazia referência, nem numa nem n’outra, à similaridade que as casavam tão apaixonadamente.

Na primeira dessas notícias, destaca-se o calvário do poder público paulista em despoluir o Rio Tietê, hoje um córrego que mal reflete a luz do sol. Não obstante o investimento bilionário (da ordem dos R$ 3 bi) na tentativa de limpeza do rio, parece não existir vontade política para que todo esse investimento dê resultado. Enquanto máquinas mostram aos transeuntes das marginais que há trabalho sendo feito, diversos bairros e cidades do arredor continuam despejando seus esgotos no saudoso Tietê.

A outra nova, dessas que a gente lê e não dá tanta importância, é a de que o “DEM rediscute imagem de ser ou não de ‘direita’”, ipsis verbis. Pegou a relação? Sempre que leio notícias desse calibre, tendo a pensar nas “Scènes de la vie politique” da antológica “La comédie humaine” de Honoré de Balzac. Se o escritor francês respirasse os ares de nosso tempo, ia lhe faltar décadas de vida para registrar tanta inspiração que a política brasileira emana.

Mas sobre a comédia política desses trópicos já dei meus apontamentos, e a notícia é satisfatoriamente cômica pra que eu volte agora a esse picadeiro. Continuemos com a correnteza da feliz inspiração.

O ponto de convergência, que você certamente sacou, é a situação parecida em que se encontram o poluído DEM, certamente antigo e talvez futuro PFL, e o despudorado Rio Tietê. O partido, que já não ostenta pudor há muitas eleições, maquina secretamente em suas convenções maneiras de parecer mais limpo ao eleitor, sem que consiga se desvencilhar de sua essência elitista e senhoril.

O Tietê, pelo contrário, faz navegar a céu aberto os detritos paulistas, sobretudo os governamentais. Confundem-se em suas pastosas e inconfundíveis águas, se é que ainda há águas, os restos do descaso político e das necessidades naturais dos particulares. É, tal qual um partido político decadente, um lugar onde o interesse público e a necessidade privada se embaraçam.

E entre poluídos e despudorados, perdoar-me-ão os puristas logomáquicos, a merda continua a boiar...

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Ministro da Verdade

Quando o escritor britânico George Orwell sentou em sua cadeira para escrever sua obra-prima, imaginou um catastrófico cenário futurista em que uma espécie de mescla fascista-socialista dominaria o mundo, suprimindo liberdades civis e até mesmo cortando pela raiz o pensamento crítico das pessoas. Todo canto do planeta era vigiado pelas câmeras do governo, os olhos do hipotético ditador Grande Irmão (Big Brother, para os íntimos), que aliás emitia ordens à população assim que achasse necessário. Enfim, uma espécie Pedro Bial sem aquela filosofia toda.

Nesse mundo catastrófico, o Ministério da Paz promovia a Guerra, o Ministério da Fartura rateava parcamente rações para a população enquanto o Ministério da Verdade nada mais fazia do que reescrever páginas de jornais e revistas antigas de modo a alterar a História e mostrar como tudo que acontece é ótimo (por exemplo, "a ração de 200 gramas de arroz aumentou para 300 gramas", sendo que na realidade há um mês a cota era de 400 gramas).

Orwell foi brilhante, mas errou num detalhe. Chutou um ano qualquer para o título de seu livro e eternizou o ano de 1984. Mal sabia ele que se escolhesse 1985 acertaria o ano em que uma espécie de ministro da Verdade herdaria a presidência de um país por aí, desses que saiam de uma Ditadura Militar.

José Sarney parece necessitar dos serviços do Ministério da Verdade para validar algumas declarações recentes. Para o senador, não havia necessidade de exibir fotos da época do impeachment de Fernando Collor quando de sua queda do poder em 1992 na galeria de fotos da história do Senado. "Não é marcante" comentou, talvez em um mesmo tom em que vociferaria "Ninguém aqui sabe de ato secreto" em uma daquelas câmeras/microfone espalhadas pelo país fictício de Orwell.

Agora, o maranhense defende que documentos estatais secretos assim permaneçam por toda a eternidade. "Não podemos fazer Wikileaks da história do Brasil", afirma ele, sob o argumento que a atitude poderia abrir feridas diplomáticas.

Sarney é o homem do partido da Ditadura que foi eleito como primeiro presidente civil pós-Ditadura. O homem que institui o congelamento dos preços para que os preços não subissem. O homem do Maranhão que foi eleito senador pelo Amapá.

Pois é. Ele reinventou o Ministério da Verdade.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

STF e seus limites

É uma discussão inconveniente.
O Supremo Tribunal Federal, a quem chamo carinhosamente de STF, vem tomando posições avançadas em debates polêmicos e creio estar ajudando a construir um país melhor.
Direitos são assegurados por essa postura, como no caso do reconhecimento da união homoafetiva e do direito à "liberdade de expressão em marchas", mas há um limite muito diluído que separa uma lógica de Estado democrática que assegure decisões salutares à democracia e uma lógica de Estado que extrapole as atribuições de uma de suas três instâncias de poder que o constituem.

É a realização de uma cidadania utópica ver tão belos direitos serem assegurados, mas se dependerem exclusivamente de uma decisão vertical, impositora, por parte do STF, corremos dois grandes riscos. O primeiro é de não surtir o efeito desejado, um risco que acomete qualquer lei contra-majoritária: se a sociedade não respeitar a lei, e a estrutura do Estado não for capaz de fazer com que seja respeitada, vira letra morta.

O segundo é ainda mais danoso, um STF legislador que seja a materialização da ideologia do sofá : o totalitarismo do "Ditador Bonzinho", que não exija ao cidadão pensar muito sobre as questões políticas e o represente satisfatoriamente em todos os âmbitos da participação política, não lhe atribua grandes responsabilidades enquanto ator político, que resuma seus deveres em uma cartilha de itens pouco exigentes, sem que tenha que sair de sua comodidade.


A participação política é um dever de quem não aceita um Estado desigual e injusto, e a luta por direitos, em suas infinitas formas, devem ser exercidas pelo poder Moderador, que, diferente do que acreditava Dão Pedrinho, deve ser exercido pelo povo, pelos cidadãos.

Contradizendo-me, o povo, por sua vez, é falível e injusto. Representado fielmente num legislativo de 513 deputados federais e 81 senadores, o reconhecimento da união homoafetiva, por exemplo, nunca passaria pelo congresso. Não é exclusividade dos nossos conservadores, já que na França não passou também, e está cada vez mais próxima da democraticíssima Uganda. O STF é avançou muito essa discussão.

Como decidir os limites do judiciário? O STF só deveria legislar para garantir direitos contra-hegemônicos, nunca para restringir liberdades civis. Mas isso é querer que o Estado trabalhe ao meu desejo liberal. Se eu quiser que estes direitos sejam assegurados, tenho que reclamá-los, esperá-los on demand pode ter um preço caro demais.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

No limiar do corrupto

Já começava a se arrastar, para além do que seria necessária, toda a celeuma política e publicitária das acusações ao ex-ministro Antonio Palocci. A Folha de S. Paulo deu o pontapé inicial num dos esportes mais apreciados pelo alto clero da política nacional: guerra de insinuações. A recente demissão foi tardia, mas não “infectou todo o governo” como insinuou o senador Álvaro Dias (PSDB/PR). A crise não é tanto do governo, pois se aplicássemos a lógica relacional da intriga política numa análise mais apurada da história do Brasil, não haveria figura pública que se salvasse. A crise é pessoal do ex-ministro Palocci e, por tabela, é nossa também.

E contra qualquer “J’accuse!” precipitado, de que eu estaria a defender Palocci, defendo, pelo contrário, que tudo seja devidamente apurado e esclarecido, não por deputados e senadores, mas por um órgão competente para esses fins. Roberto Gurgel, Procurador Geral da República, arquivou a representação dos parlamentares oposicionistas sobre a empresa de consultoria, sob alegação de que não há do que incriminar o ex-ministro.

Contudo a oposição ainda quer uma CPI (Bolsonaro deve entrar com representação no extinto DOI-CODI pleiteando interrogatório e tortura), e infelizmente isso ainda há de se alongar demais no congresso, mesmo com a demissão de Palocci. Infelizmente porque o ato tem sido tão prolixo e mastigado, que o público já perdeu o fio da meada do resto da trama.

Temos o péssimo costume, quando se trata de política nacional, de ecoar o já batido sermão das comadres políticas, homens públicos e grandes veículos de comunicação, sem dedicar algum esforço por entender o que realmente está por trás desses discursos.

Ora, a corrupção nestas terras existe desde que o “peito ilustre Lusitano” fincou suas primeiras cruzes por aqui, propagando para o além-mar seus vícios políticos tipicamente europeus. Já passado quase meio milênio, ainda carregamos as cruzes de uma máquina pública enraizada num solo mal cultivado, sedimentado por camadas e mais camadas da mais estéril corrupção. A gente se acostumou à impunidade, ao “jeitinho”, de tal modo que, para cortar esses males pela raiz, vai um bom trabalho, trabalho que interessa a poucos.

Apesar de tudo isso, tendemos ao imediatismo, por puro conformismo e desinteresse público, por idéias fixas e fidelidade eleitoral incondicional ou pela mais miserável desinformação política. Pois desse solo queimado pela corrupção brotaram escassas almas éticas, frutos da resistência às áridas condições educacionais que muitos fizeram questão de conservar no correr das estações e da resistência ao rebanho de agiotas do Estado que pastam, há séculos, nesse solo queimado.

E se você é grande pecuarista, latifundiário, não se sinta vitimado pelas metáforas, são recursos de linguagem apenas. Não ferem nem matam ninguém, não definitiva e literalmente. Aliás, aos desinformados, a corrupção política também tem chacinado camponeses (sinédoque) nos distantes rincões do nosso país ultimamente.

Não espere que todos os parlamentares que entram com representações aos MPs (Ministérios Públicos) e solicitam instauração de CPI na Casa fazem isso com a espada da ética em punho. Só uma minoria. A grande maioria dos parlamentares é capaz de passar toda sua legislatura requerendo representações contra seus desafetos políticos em nome de uma cruzada partidária que só a gente, eleitorado, pode resolver.

E é lamentável como a viciada imprensa no Brasil, sobretudo na política e no esporte, depende de “grandes crises” de quem está no topo. Se não as há, ela continua com suas crônicas moléstias: rabo preso e vista grossa. De um modo geral, a cobertura política se contenta com a guerra burocrática nas instâncias de poder, ou mesmo com o circunlóquio sempre presente nas manifestações públicas de alguns congressistas.

É necessário noticiar que Palocci aumentou consideravelmente seu patrimônio quando deputado, sem dúvida. Mas também há necessidade desses veículos discutirem reiteradas vezes que outras figuras políticas duplicam, triplicam ou quadruplicam seus patrimônios graças a seus poderes parlamentares e mesmo simplesmente por serem parlamentares. Porque isso está à vista de todos.

Diz o bom senso que o enriquecimento não é crime, só quando acontece de maneira corrupta. No entanto devemos ter relativizado a idéia de corrupção no Brasil, nesses séculos de idas e vindas. Em política, nosso “jeitinho” foi ampliando o limiar do aceitável. E enquanto estávamos distraídos com nossos afazeres do dia-a-dia e com as notícias que os jornais sempre escolheram nos dar, aumentar o patrimônio à custa do Estado virou uma prática legal, até honesta, publicamente tolerável e fundamentalmente democrática.