sexta-feira, 20 de maio de 2011

A invenção do PSD

O sociólogo Fernando Henrique Cardoso, que tem esquadrinhado cada canto de sua consciência em caça ao orgulho de seu partido, não por acaso ocupa hoje o cargo de presidente de honra do PSDB. Honra essa ferida pela recente migração diaspórica de tucanos a bater asas rumo ao colo receptivo do mais recente sinal da precariedade política nacional, o PSD. Sim, afinal esse novo PSD é um partido inventado, que nasce sem direção definida, com princípios falaciosos e fruto de uma sórdida investida eleitoreira, pois os recentes 43% de rejeição do prefeito Gilberto Kassab, fundador da sigla, alertam que é prudente não se opor aos 73% de aprovação da presidenta Dilma Rouseff. E isso ocorre dessa maneira por que Kassab e seus novos amigos almejam cargos eletivos num futuro próximo, e nada mais oportuno do que desvencilhar seus nomes de uma direita em um caricato e anunciado processo terminal, apesar do que tentam demonstrar as recentes sandices de FHC.

Há uma motivação perversa por trás da criação do PSD, e isso incomoda resistentes da oposição direitista que dedicam lágrimas, suor e honorários a barrar um claro sinal de sua decadência, estampada em cada baixa que esses opositores enfrentaram, enfrentam e ainda hão de enfrentar. Discute-se já a possibilidade de fusão entre PSDB, DEM e PPS, numa tentativa de salvar sabe-se lá que ideologia política e em nome de sabe-se lá que futuro. Enquanto isso, Kassab arrebanha opositores menos arrependidos que oportunistas, afinal a política ainda se faz mais na imagem do que na ética, e tal infeliz situação é o álibi ao qual a nova turma do PSD se agarra com intenções exclusivamente eleitorais.

A caixa de Pandora, que é inacessível a uma colossal parcela da sociedade brasileira, contém em seu interior, e a alegoria mítica é proposital, a linhagem do PSD. Poucos conhecem, ou se conhecem ignoram, a ascendência política do novo grupo encabeçado por Kassab. A raiz do PSD foi aquela que “inventou a tristeza” e não teve a “fineza de desinventar” numa das passagens mais atrozes da história brasileira e já “desbotada na memória das nossas novas gerações”, para abusar da frutífera referência. No recente enfraquecimento da direita, os remanescentes da ARENA têm pagado, mas não dobrado, as lágrimas roladas no penar de outrora de muitos brasileiros. No correr da história, as crias da ARENA, sustentáculo do governo militar, ainda levantariam as bandeiras do PDS e do PFL antes de se chamarem, ironicamente, de DEMocratas há quatro anos. Além dessa descendência, que já é assombrosa, Kassab é afilhado político de Maluf, foi secretário de planejamento de Celso Pitta e carrega o mesmo modus operandi dessas duas doces almas que imperaram a paulicéia, todos os três com gestões pouco democráticas e extensos acervos de controvérsias.

As campanhas iniciais do prefeito Gilberto Kassab tentando alinhar a ideologia de seu novo partido à ideologia desenvolvimentista do antigo PSD do presidente JK são delirantes e de má-fé, pois carregam um desrespeito pelo povo, pela história recente do Brasil e pelo próprio JK. O DEM-PFL-PDS-ARENA, do qual Kassab é politicamente afilhado, colocou o PSD de JK na ilegalidade durante o regime militar com o AI-2 em 1965. Essa pretensa consanguinidade é mais um sinal da desesperada peleja do prefeito de São Paulo contra seu sujo passado político, e se mostra ainda mais infundada, pois qualquer testemunha mais atenta constata que o desenvolvimentismo passa a milhas da capital paulista.

O espólio burocrático e o fator governabilidade fizeram com que muitos setores da base do governo aceitassem com bons olhos a criação do PSD. Isso porque dentro das manobras político partidárias do congresso é positivo ter mais aliados ou neutros do que carregar o mesmo número de adversários. Além disso, as líricas trocas de olhares entre partidos da base governista e o PSD de Kassab são resultado da insatisfação desses setores da base com a nomeação de cargos do primeiro e segundo escalão no governo federal. Dado o poder de governo do novo bonde do Kassab, com prefeitos e governadores já em atividade, e os olhares voltados a 2012, é lucrativa a adesão ao PSD tanto para governistas quanto para oposicionistas.

Mas onde ficam as afinidades ideológicas nessa torre de babel, existem? E a ética governamental e o compromisso com a população, alicerce da política de fato, onde aparece nessa panela partidária? São Paulo, por exemplo, ainda pede socorro para 2010, não para 2012. A cidade precisa de creches, hospitais e corredores de ônibus, não um partido novo para o mesmo prefeito.

Assim, um novo cenário político nacional se arquiteta: No topo um governo que conduz o Brasil enfrentando defeitos políticos estruturais e uma herança histórica de descuido em diversos setores, como educação, saúde e tributação, pra citar alguns exemplos; uma oposição asfixiada, à direita, que tenta recuperar os cacos de sua vaidade abalada pelo fenômeno Lula e pelo escoamento de sócios através do único corredor que Kassab efetivamente criou; uma eleita oposição crítica e responsável, à esquerda, com a ética política necessária a transformar o Brasil, mas sem a atenção que merece por parte da velha e viciada grande mídia; uns errantes e manejados no meio disso tudo, afinal ser parlamentar é um emprego assaz lucrativo; e por fim os escapados, os lisos, os candidatos de 2012 do PSD, que não conseguiram se sustentar ideologicamente nesse novo cenário e inventaram um partido para sobreviver.

2 comentários:

Thiago Teixeira disse...

O PSD é o partido Tetrapak: não importa a origem do produto, a caixinha é a mesma, e vai sempre tentar preservar a qualidade da imagem do produto. Mas a validade, bom, mesmo que se altere a data, o cheiro denuncia.
Excelente texto, santista!
O abraço.

Renato Diniz disse...

Depois dessa aula de política tenho alguns apontamentos: há rumores de que o o PSD foi fomentado pelo próprio presidente do PMDB (Partido Mandatário Do Brasil), o incauto Michel Temer, com o intuito de ver o circo tucano/democrata pegar a fogo e esperar o último sair para apagar as luzes. A suposta razão para a troca de partido desses políticos de nova sigla seria a insatisfação quanto a precária linha ideológica da direita brasileira, o que não é nenhuma mentira, mas mascara o caráter eleitoreiro que você bem citou. Afinal, que esperar de um partido que já nasce grande? Ao meu ver, ao aproximar direitista do governo, desesquerdiza-se a já fragilizada coalisão centro-esquerda do governo brasileiro e surge um centrão [ao estilo Pântano da Revolução Francesa] sem uma oposição combativa que mereça elogios. Como tu bem citaste, a expectativa fica por conta da atuação ética e responsável de integrantes do PSOL nesse teatro de zique-zagues ideológicos que vive a política brasileira e mundial. Ufa, cara, isso deveria ter sido um post meu... já já postaremos!