segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Minhas condenações ao PT


Em novembro de 2011 foi publicado no Brasil o livro “A Privataria Tucana” do jornalista Amaury Ribeiro Jr. Pouco divulgado pela grande imprensa nacional, a publicação traz minúcias do esquema de privatização nas altas do governo FHC, com denúncias, mas também com o que algumas vezes tem faltado ao famigerado “julgamento do século”: provas. Boa parte do livro de Amaury Ribeiro Jr. é composta por documentos, não contrabandeados, mas facilmente disponíveis em juntas comerciais, envolvendo peixes grandes do PSDB e toda a trama de venda de estatais e enriquecimento de alguns poucos indivíduos.

Hoje, ao final de 2012, pululam notícias sobre a acusação do publicitário Marcos Valério, dito operador do que fora conhecido como “Mensalão”, contra o ex-presidente Lula. O depoimento de Valério ocorreu em setembro, mas foi vazado agora. O publicitário está condenado a 40 anos de prisão por uma série de crimes, seus depoimentos se mostraram contraditórios e a delação premiada se apresenta como o consolo para Valério. Razões para não crer.

Em todo caso, não escrevo aqui para defender o PT. Mas para tentar atrair a atenção política para um debate menos fanático e mais produtivo. Tenho críticas ao partido, dentre elas ao esquema chamado de “Mensalão”, mas não consigo me limitar ao alarde de suspeitas porque procuro não me amarrar a partidarismos ou antipartidarismos.

Criado por intelectuais, religiosos e sindicalistas, para calar a birra de Marcelo Tas quanto ao “dos trabalhadores”, o PT juntou, em seu início, diversas ideias de transformação de um país atado pela ditadura militar. Ainda conserva boa parte desses ideais iniciais em grupos dentro do partido, mas desde que conquistou o executivo nacional com Lula, se enredou pela lama do fisiologismo herdado do católico império português.

Também não é a intenção desenhar a história do partido desde sua fundação em 1980. Quero sim, talvez, proporcionar aos antipetistas de plantão argumentos mais sólidos e menos ridículos do que os atuais, embebidos em moralismo barato e sem nenhum propósito positivo.

A começar pelas alianças. Nas três primeiras tentativas de Lula ao Planalto depois da redemocratização, 1989, 1994 e 1998, o PT se aliou exclusivamente a partidos de esquerda. Em 2002 recebeu apoio de legendas alheias aos seus tradicionais ideais, como o conservador e centro-direitista PL, conquistando a eleição presidencial. A partir daí precisou lotear cargos comissionados aos partidos da base aliada, o que se repete na prefeitura de São Paulo agora.

Há aí um problema da estrutura política nacional. Um executivo não governa se não tem maioria no legislativo e, por mais frutíferas e necessárias que sejam as suas propostas, ainda é no esquema de escambo que se consegue apoio. Mas o antipetismo não consegue condenar essas alianças, pois vota em coligações mais sombrias. O PT deveria se sustentar, em cada eleição, no apoio popular que tem, não nas tenebrosas alianças que aceita.

O campo é outro lugar do qual emanam condenações ao governo do PT. Em seu início, o partido tinha por norte a reforma agrária, apoio ao pequeno camponês e à agricultura familiar. Há programas de assistência a essa população, como o PRONAF (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar), mas ainda é o favorecimento às grandes empresas, muitas de capital estrangeiro, que predomina.

Com isso, para o crescimento da produção agropecuária, ainda são os poucos e grandes que lucram. Há tragédias sociais como a morte de camponeses e índios por jagunços pagos pelo grande latifúndio, a perda de terras daquela população pela expansão do agronegócio, exploração do trabalho rural e ainda o trabalho escravo. Assim como severos danos ambientais por pouco investimento em sustentabilidade, assoreamento de rios, desmatamento, contaminação por agrotóxicos, transgênicos e um festival de agressões de grandes empresas não fiscalizadas.

É fraca a fiscalização, fracos são os movimentos estatais de reforma e é forte o lobby de ruralistas. O pequeno negócio rural e a agricultura familiar empregam 80% da mão de obra do campo e 70% do que é consumido pelo brasileiro vem desses tipos de produção. Mas o PT continua refém da mídia no campo, sem transformações efetivas.

A Educação também não tem recebido a atenção desejada pelo governo do PT. Apesar dos avanços como acesso e expansão das universidades federais, certos desvios de percurso merecem crítica. Como a difusão de universidades particulares, empresariais e comerciantes de ensino que formam mal seus profissionais. Não existe educação bem feita com lógica empresarial, pois se cai no racionamento educacional, no qual o lucro precisa justificar o investimento. Desse modo, infla-se o mercado de trabalho com técnicos em profissões meramente lucrativas, sem propósitos sociais e com cursos promocionais e formações efêmeras.

Ainda outro lamentável ponto da política educacional do governo Lula foi o do investimento. Lula manteve os vetos de FHC aos artigos do PNE que implicavam em investimentos na Educação. Só hoje o governo do PT, não tão amplamente apoiado por sua heterogênea base, vota 10% do PIB para o PNE. Mas a expansão das federais e a valorização dos professores poderiam ter sido muito mais bem feitas se houvesse compromisso inicial com a Educação. Resultado disso são as obras inacabadas de algumas universidades, assim como os ainda defasados reajustes salariais e planos de carreira de docentes, mesmo depois da greve desse ano, desestimulando a carreira acadêmica.

Sinceramente espero que a posição de credor do FMI seja de alguma valia para o Brasil. Mas não creio que o crescimento econômico esteja de mãos dadas ao crescimento social como pode estar. E nessa toada a verdadeira oposição ao governo cobra ações mais efetivas e apresenta propostas necessárias. Já a oposição de vitrine se enfraquece, pois está limitada aos pedidos de investigação sempre que uma suspeita surge.

São outras minhas condenações ao governo petista. Das relações com empreiteiras em obras da Copa e em financiamentos eleitorais aos escândalos de corrupção que o partido, hoje demasiado inflado, enfrenta. Mas a prolixidade me desencoraja a ir mais longe, por hora.

Cabe, por fim, lembrar que a militância petista, quando cega, releva os malfeitos de seu partido e aceita inconteste os podres com os quais o PT governa. Mas a militância antipetista não se fundamenta, não elabora argumentos sedutores e papagueia a perseguição infértil da mídia conservadora, de maneira igualmente fanática e acéfala.

É preciso fugir tanto de um quanto do outro. Cidadania não se aluga, se constrói.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Ciência sem barreiras


Para a cólera e contrariedade dos que só aceitam políticos de carreira na política, é de autoria do deputado e ex-jogador Romário (PSB-RJ) um dos projetos mais promissores para a ciência brasileira. O PL 4411/2012 tem por finalidade desburocratizar as “importações de bens destinados às pesquisas científicas e tecnológicas”, como declarado na ementa do próprio projeto. Através de um cadastro nacional feito pelo CNPq, cientistas que importam esses bens terão desembaraços aduaneiros e outros tradicionais trâmites simplificados. É um importante passo para a evolução da produção científica no Brasil.

As dificuldades encontradas por pesquisadores que precisam de material são grandes. No projeto de lei do deputado Romário, a liberação para aquisição de material científico importado será imediata para cientistas previamente cadastrados pelo CNPq.

Outros planos similares visando à simplificação do processo de importação já foram criados, como a Instrução Normativa nº 799 de 26 de dezembro de 2007 da Receita Federal e a Resolução nº 1 da Diretoria Colegiada da ANVISA em 22 de janeiro de 2008. No entanto, como revelado na justificação do projeto de lei, 91% dos pesquisadores que fazem uso de material importado não encontraram melhorias depois dessas portarias.

Essa iniciativa de Romário não é só relevante para a produção científica nacional, que está sem competitividade e acaba não retendo cientistas nas mais diversas áreas. Mas também para o sistema de saúde brasileiro, que depende muitas vezes de pesquisas e consequentes avanços científicos e tecnológicos.

Tal é o caso das pesquisas com células tronco embrionárias. Em abril deste ano o Ministério da Saúde anunciou o investimento de R$ 8 milhões para construção e reestruturação de Centros de Tecnologia Celular. O intuito da medida é a produção interna, que ainda é muito refém de importações e da consequente burocracia e custos envolvidos.

No entanto, o investimento é só uma parte e o prejuízo é de toda a comunidade científica. Segundo Lygia da Veiga Pereira, uma das mais reconhecidas pesquisadoras brasileiras, 95% dos reagentes usados em laboratórios nacionais são importados e agências do próprio governo acabam atravancando o trabalho de cientistas.

Segundo a mesma pesquisadora, o Brasil tem um potencial científico grande, mas peca em alguns pontos, dentre eles a burocracia em importações. Em consulta à emenda ao projeto de lei, de autoria do deputado federal Vanderlei Siraque (PT-SP), vê-se que a taxa de produção de artigos científicos no Brasil nos últimos 10 anos é de 8%, muito acima dos 2% da média mundial. Potencial há, o que falta é a facilitação do trabalho.

Em dados de pesquisa do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ publicada em 2010, 99% dos pesquisadores consultados têm necessidade de importar materiais; 76% já perderam material retido na alfândega; para 68% as importações demoram mais de 3 meses para chegar nos laboratórios e 98% dos pesquisadores já deixaram de realizar pesquisa, ou parte dela, por problemas relacionados à importação.

Em muitas outras partes do mundo os materiais são recebidos em até 24 horas.

No projeto apresentado por Romário, o material importado será livre de taxa e de total responsabilidade do pesquisador cadastrado. Inclusive eventuais danos à saúde individual, coletiva e ao meio ambiente são passíveis de sanções penais ou civis.

O PL4411/2012 foi apresentado em 5 de setembro. A Mesa Diretora da Câmara indicou a passagem do projeto por 4 comissões: Seguridade Social e Família; Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática; Finanças e Tributação e à de Constituição e Justiça e de Cidadania. Atualmente o projeto está na primeira, aguardando apreciação.

É mais uma grande iniciativa de Romário, que vem sendo combativo e destaque em sua atuação legislativa. O PL4411/2012 pode ser um divisor de águas para a ciência brasileira, concretizando o potencial científico e tecnológico de um país que precisa se livrar dos próprios entraves para crescer.

Só espera-se que um projeto que desburocratiza a aquisição de materiais importados para pesquisas científicas não fique retido na tradicional e morosa burocracia parlamentar.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Pra você que virou à direita


Você que virou à direita, ao encontro simpático da força sociopolítica com tendências conservadoras, individualistas, segregacionistas e mercadológicas, que muito fez por poucos na história do país, assuma o mundo cão que essa força ainda alastra pelo Brasil. Não se esconda por trás de moralismos baratos, acríticos e fanáticos. Seja sujeito de seus atos, de suas decisões.

As implicações de uma tomada à direita não recaem somente sobre uma eleição local, preferindo o aparentemente menos corrupto ao crucificado por entidades que, também elas, viram muitas vezes à direita. Quem opta por essa forma de governo, de gestão, de poder, sustenta e conserva um extenso enredo de ações em todos os rincões do país e em todas as esferas de atuação política.

Quem vira à direita autoriza a violência no campo na luta por terras, a segregação social urbana, a venda do Estado e tantos outros infelizes descaminhos típicos dessa tendência. À direita se relativizam os direitos humanos em nome do lucro, se concentra a renda, à direita se mantêm a desigualdade, o analfabetismo e a fome, se mercantiliza a saúde, a educação, o transporte, os direitos civis, à direita se institui um paradigma coercitivo, punitivo e dominador de Estado que não garante direitos, os terceiriza.

Você, que optou por virar à direita, reflita sobre o peso da sua decisão na luta por terras no Brasil. Saiba de que lado ficaram lideranças de seus representantes quando da votação do novo Código Florestal. Procure analisar com sua humanidade do dia-a-dia a situação indígena e campesina no Brasil, os interesses do grande latifúndio sustentados pela direita e cada bala que fere o corpo de um pequeno produtor em nome do lucro de poucos e grandes, que você elege.

Não se aproveite de um julgamento midiático para fundamentar seu repúdio à esquerda e aos que pensam diferente de você. Assuma seu desprezo puro e simples, mas justifique. Assuma-se contra a reforma agrária, contra o acesso irrestrito à educação gratuita e de qualidade e a uma saúde digna por parte de parcela da população que lhe inspira desdém. Não faça do moralismo a sua bandeira, se a moral não lhe acompanha.

Você, que virou à direita, seja pragmático, faça um exercício de visitar uma periferia. Viva, ao menos por algumas horas, a aventura dos suburbanos, frutos do apartheid social que vigora, sobretudo, em grandes cidades. Extrapole sua bolha porque você tem que viver com o povo da periferia assim como, infelizmente, esse povo tem que viver com você.

Compreenda o papel das suas escolhas políticas, de ação ou de não ação, com milhares de famílias que moram nas ruas, que sofrem para pagar um aluguel inflado pela especulação imobiliária. Famílias que sofrem com bairros escuros e violentos, com pouca perspectiva e oportunidade porque lhes faltou a sustentação que te acompanha desde o berço.

 Se virou à direita, encare o que a direita cria, e você patrocina, debaixo das pontes de grandes cidades. Entenda e se responsabilize pelo abismo de qualidade entre a escola privada e a escola pública, pela proliferação empresarial de educação superior voltada só ao trabalho, com muitos profissionais mal formados ou mal fabricados.

Por virar à direita, descubra e reconheça que a coerção, a segregação e a marginalização alimentadas pela sua corrente política são agentes da violência, do roubo, do sequestro e do furto do seu iPhone.

Por fim, você que virou à direita, vire mesmo. Mas vire com gosto, não se acanhe. Não se atenha a um mero votar e está feito. Responsabilize-se pela força política que escolhe, que elege. Mas não cobre ética, justiça social, igualdade de direitos e oportunidades se não é isso que você efetivamente cria.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Benjamin Schianberg, um obscuro filósofo do amor




O professor e filósofo Benjamin Schianberg, autor do livro “O que vemos no mundo”, esteve no Brasil e fala com exclusividade ao “Haja Paciência” sobre suas pesquisas e estudos sobre o “maior dos sentimentos humanos”

o retorno de Rôney Rodrigues

A verdade é que ninguém consegue conceituar, explicar e nem pode dizer qualquer coisas a respeito. Mas ele diz. Ele se arrisca.
Depois de uma noite regada a Velho Barreiro e uma conversa esclarecedora com Miles, grande especialista em cornulências e dores de amor, estava pronto para a entrevista. Sim, vou falar com o cara e pretendo redentar todos os amantes, cornos, desprezados, mal amados, mal-comidos, mau-comedores, pessoas com fraturas expostas na alma, gente com a garganta que só se umedece com uísque. Como eu. Como Miles.
Miles sabe mais que eu. Já leu mais Schianberg que qualquer um. Diz, antes que eu saia para a entrevista, que no amor todos são esfinges e, tal qual a lenda tebana, se os enamorados não tiverem respostas para o enigma são devorados. Sem filosofias de botequim, peço a Miles. Mas pensei que talvez fizesse algum sentido e, não fazendo, ao menos era um bonito clichê. Mas, apesar das tentativas filosóficas, Miles não tem as respostas. Eu tampouco. Saio para a entrevista na esperança de que, talvez, Benjamin Schianberg as tenha.
Até esse momento, sou apenas um distraído bêbado, ressacado e conferindo anotações em uma mesa do Café São Paulo. Em minha googleada costumeira para a entrevista, descobri que existem mais de 400 páginas que citam Benjamin Schianberg, que sua obra serviu de inspiração para uma serie da TV Cultura (“O Amor segundo Benjamin Schianberg”) e editoras o procuram para lançar seus livros no Brasil. Também foi ostensivamente citado no romance “Eu receberia as piores noticias de seus lindos lábios”, de Marçal de Aquino, que virou filme, dirigido por Beto Brant e Renato Ciasca (apesar de não ser citado na película). Nada mau para um filosofo ainda vivo. Nada mau para um filosofo ainda vivo e obscuro.
Em poucos minutos Benjamin Schianberg chegará e poderá responder às minhas dúvidas numa sessão terapêutica e sentimental camuflada de entrevista. Mas, por enquanto, é o café que chega. Dou um gole, ele desce pastoso pela garganta e queima no estomago. Schianberg aparece na porta. Termino o café em uma golada só. É hora de trabalhar.

Qual é a pergunta que mais fazem?

Em que meus livros podem ajudar.

E em que seus livros podem ajudar?

Em nada.

O senhor parece ter uma visão ácida das relações amorosas e ser um cara meio amargo, fatalista, que pensa na mediocridade humana...

A vida da maioria das pessoas é medíocre, o que não as impede de enxergar tudo numa perspectiva heroica. Suportamos a existência tentando converter o banal em épico. Pense: apenas 2,4% da humanidade é feliz. Essa ínfima minoria, integrada por monges trapistas, alguns matemáticos, noviças abobadas e uns poucos artistas, gente conservada na calda da mansidão à custa de poesia ou barbitúricos. Um clube de dementes de categorias variadas, malucos de diversos calibres. Gente esquisita, que vive alheia nas frestas da realidade. Só assim conseguem entregar-se por inteiro aquilo que consagram como objeto de culto e devoção. Para viver num estado de excitação constante, confinados num território particular, incandescente, vedado aos demais. Uma reserva de sonho contra tudo que não é doce, sutil ou sereno.

E isso não é bom?

É o mais próximo da felicidade que podemos experimentar.

E por que nos seduzimos para essa “reserva” e não dominamos esse impulso que nos impele à paixão?

Se dominássemos os nossos impulsos, não seriamos mais felizes com isso, mas é certo que muita coisa seria evitada - guerras inclusive. Muitas vezes, entre os amantes, em adição às afinidades do corpo, surge uma sintonia mental, intelectual, que ao propiciar jogos, provocações e brincadeiras privado acentua ainda mais o caráter de cumplicidade na relação. Casais costumam estabelecer espaços particulares de comunicação, inacessíveis ao restante da manada humana ao redor. Intimidade psíquica. E o desejo de se apossar por completo do outro é uma das doenças mais comuns do amor. É o resfriado das moléstias amorosas.

Então cair nessa cilada seria uma loucura.
Há sempre um pouco de loucura no amor, mas há sempre um pouco de razão na loucura, diz Nietzsche, mas eu contesto: na loucura dos amores contrariados não há espaço nenhum para a razão, apenas para mais loucura. A natureza do amor, não nos permite escolher por quem nos apaixonamos, é uma rota que pode conduzir à ruína. Alguns homens sublimam seus desejos, projetando-os num plano apenas mental, e isso é suficiente para satisfazê-los. Outros, apesar de resistirem com diferentes graus de esforço, acabam por ceder às tentações. São o que se chama de “homens de sangue quente”.

Exceto se mantivermos um amor platônico e...

(Cortando-me)
...amor platônico, o 'maldito amor complacente'. Homens de sangue quente, nunca se sujeitam a esse gênero de amor. Preferem abdicar, se a situação for irremediável, a ser passivos como aqueles que se rendem à esplêndida ilusão do amor platônico.

Fale-me um pouco sobre a sua descoberta, a STTL (Síndrome de Transferência Total de Libido).

Queremos o que não podemos ter. A grande desgraça é que as lembranças não bastam para confortar os amantes. Nunca aplacam. Ao contrário: servem só para espicaçar as chagas daqueles que foram condenados à lepra do amor não correspondido. É a Síndrome de Transferência Total de Libido: quando o indivíduo se apaixona com um grau de entrega total a sua libido se transfere, de modo exclusivo, para o objeto amado.

E é aí que dá merda?
Nenhuma vida está completa sem um grande desastre.

Talvez, então, devêssemos evitar esse sentimento...

(Pensa um pouco) No reino amoroso, o 'talvez' é uma moeda sem nenhum valor.

Você me pegou. Então, pelos menos, que se corte o mal pela raiz já no começo.

Mas não é possível determinar o momento exato em que uma pessoa se apaixona. Se fosse, bastaria um termômetro para comprovar a teoria de que, nesse instante, a temperatura corporal se eleva vários graus. Uma febre, nossa única sequela divina.

Uma última pergunta. Sei que não é da minha conta, mas é algo que todos imaginam: a vida amorosa do mais obscuro filósofo do amor deve ser bem tumultuada.

Você tem razão, mas só em uma coisa: não é da sua conta.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Maluf IV?



Já se conjectura, nos cenários mais prováveis, uma São Paulo governada por Celso Russomanno. O candidato não para de subir nas pesquisas e começou a receber hostilidades de José Serra: sinal de que se tornou popular. Enquanto o pleito não fecha, o populismo dá as caras em mais um antigo aliado político de Paulo Maluf, muito provavelmente o terceiro a reinar na Pauliceia.

Maluf, o próprio, inaugurou o espírito político paulistano. “Perguntem aos taxistas!”. Nomeado prefeito da capital paulista pelo Marechal Costa e Silva, presidente ditador a quem posteriormente homenageou com seu “Minhocão”, Maluf sempre gozou de apoio do povo paulistano. Se não do todo, ao menos da maioria. E se não sua pessoa, ao menos seu clássico know how eleitoral.

Com obras gigantescas, rica retórica e a malandragem do conservadorismo, Paulo Maluf reinou em São Paulo, pela segunda vez, de 1993 a 1997 e, apesar do hoje deplorável “rouba, mas faz”, teve hábil tato público para eleger seu sucessor Celso Pitta, Maluf II.

Na época, Celso Russomanno galgava seu espaço público na televisão, em programas como o fenecido Aqui e Agora e se aventurava pela política pelo não fenecido PFL, aquele velho partido do regime militar que nomeou Maluf. Candidato à câmara nacional, foi o deputado mais votado em 1994.

Maluf II, Celso Pitta, herdou o trono e a perversão. Selando fidelidade à casa real, se tornou réu em treze ações civis, aumentou a dívida pública da cidade em 110% e, com o escândalo dos precatórios, perpetrou formação de quadrilha, lavagem de dinheiro e desvio de verbas públicas. 83% dos paulistanos não gostaram de sua gestão, democraticamente eleita pelos mesmos paulistanos.

Nesse ínterim, Russomanno antecipava a banalização da fidelidade partidária e, legislando agora pelo PSDB, de 1994 a 1997, passou no meio de seu mandato para o antigo PPB, atual PP, cujo brasão ostentava as grandes obras de seu maior ícone: Paulo Maluf.

Vale lembrar a linhagem dessas casas reais. Da dinastia ARENA fez-se a ditadura militar ou vice-versa. Com o advento do fim do bipartidarismo, em 1980, do governo ditador se fez o PDS. Com a redemocratização, a dinastia se enfraqueceu, laços foram rompidos e desse afã de salvação política nasceram dissidências, nem tanto ideológicas, mas sim puramente nominais: PFL e PPB, antigo e atual, na nossa narrativa, partidos de Celso Russomanno.

Retomando a história desse triste fado paulistano, após cerca de 6 anos mais um herdeiro de Maluf herda a prefeitura. Desta vez Maluf III, Gilberto Kassab, recebe o comando por um “papelzinho” e dá andamento ao tradicional reinar malufista.

Sua coligação com José Serra não é de surpreender. A social-democracia, às avessas com PSDB, sempre teve no PFL-DEM um forte aliado. Kassab veio daí, e mais tarde criou o PSD. Social democracia com tendências liberais, democráticas, pro povo, só que não. A raiz é a ARENA do golpe militar. Perseguições políticas, tortura e extermínio antes era política de Estado, hoje só pega mal.

De 1997 a 2011, durante mais de 10 anos, Celso Russomanno esteve ao lado de Paulo Maluf no PPB-PP. Em 1998 foi acusado de exercício indevido da advocacia e de cobrar caro por auxílio a seus clientes, falsidade ideológica para concorrer à prefeitura andreense em 2000 e destinação de verba pública para uma ONG que preside, em 2010.

De 2006 até a presente data, Maluf III tem dado continuidade à política de seu padrinho, Maluf I. Especulação imobiliária governando a cidade, política de proibições, obras eleitoreiras de fim de mandato e, fiel à fama: denúncias.  Fraude no Controlar, venda da cidade e, depois do escândalo da “máfia dos alvarás”, Kassab tenta limpar a barra com urgência. Além de tudo, Maluf III foi secretário de Planejamento de Maluf II, e hoje enfrenta rejeição de 48% da cidade que o elegeu.

Candidato de Maluf I na corrida estadual de 2010, Russomanno hoje renuncia ao, até pouco tempo atrás, “querido” colega. Atualmente no PRB, seu quinto partido e grupo fortemente apoiado por igrejas evangélicas, tenta desvencilhar sua imagem da Igreja Universal, influente no partido.

A vitória é quase certa. Com apoio evangélico e de um tradicional eleitorado que sempre preferiu os métodos de Maluf, populismo paulistano, Russomanno segue tranquilo na liderança e vence em qualquer cenário de segundo turno.

Resta saber se a história se repetirá como farsa, pela terceira vez, coroando um modo de governar tipicamente paulistano.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Custe a quem custar


Mais um trágico espetáculo de pretensa defesa da ética, moral e família, deu as caras no humorístico CQC da Rede Bandeirantes. Já se discute a duras condenações a alucinada busca por polêmica do programa ao tentar incriminar sem crime um pseudo-criminoso por pedofilia.

Válido e sensato analisar o atual uso do programa. Iniciado com nobres propósitos de elucidação cidadã do telespectador em meio aos programas televisivos carentes de reflexão, aos poucos o CQC foi se rendendo aos padrões atuais da televisão: polêmica gera audiência, que gera patrocinadores, que trazem maior faturamento. Mercenários? É o sistema.

Ao que tudo indica, aqueles primeiros objetivos de um programa crítico foram soterrados pela fama instantânea e consequentes surtos de egolatria por parte de muitos integrantes, custe o que custar.

Alguns ganharam programas próprios, todos, seguidores de twitter, e nós ganhamos mais um humorístico sem humor que cava às profundezas do ridículo em busca da famigerada polêmica.

O aquário de egos soi-disant politizado parece estar dedicando mais tempo às festas de celebridades e adulando globais que propriamente buscando a tal elucidação política custando o que custar.

Quando muito, o quadro dedicado a módico esculacho de autoridades irresponsáveis vai a distantes cidades, onde tais autoridades são conhecidas pelos 15 mil habitantes locais. Peixe-grande é muita areia pras moscas que “correm atrás”.

E nessa cadência de evitar figurões ou só atormentar os sempre unânimes Renan Calheiros, José Sarney e Fernando Collor, se escondem os rabos presos dos paladinos televisivos da ética.

Qual cobertura deu o CQC e quais autoridades o CQC inquietou, quando o Código Florestal estava em pauta? Vale lembrar que a Rede Bandeirantes acolhe a pecuária e o agronegócio e dedica, inclusive, um canal a tais atividades. Além de editoriais telejornalísticos devotos do grande latifúndio. Onde estavam os defensores do Brasil e seus óculos escuros? Numa fazenda, talvez.

Além de pautas cada vez mais voltadas ao frívolo, como acirradas, excitantes e atraentes pelejas de bola ao balde, piadas batidas e de final esperado, constrangedoras lambidelas em celebridades, claras sujeições a peixes grandes e gracinhas com figuras como Bolsonaro e Maluf, o programa funciona de pedestal para a torrente de ninharias evacuadas por mentes supostamente geniais, caso do âncora Marcelo Tas, que esconde argumentos pouco fundamentados em censuras clichês e partidarismo exacerbado.

Tudo indica que essa é a linha mestra do programa: críticas unânimes, sem novidades, por rabo preso e sujeição hierárquica. Obsessão por uma indignação baldia, cujo pano de fundo é a cobertura de festas de celebridades que, muitas vezes, alimentam os problemas criticados. Baluarte de egos inflados do humor fácil, muitas vezes preconceituoso, da suposta inteligência alastrada twitters afora.

Mas, agora, também a insana caça por audiência, por patrocínio e rendimentos, custe a quem custar, sem responsabilidade ética, sem claros propósitos positivos e tudo em nome do circo televisivo, como um programa de TV qualquer.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

A gente não quer só comida


Em “Bolsa sim, ‘emprego’ não”, intentei desenhar, em linhas gerais, uma critica às moralistas e recorrentes reprovações feitas aos programas sociais do governo federal. Para além de uma defesa pura das bolsas, endossei um ponto de vista fundamental dos assistidos por esses programas. Condenei o chavão do trabalho como obrigação moral, realçando a incoerência dos que criticam os socorridos com dinheiro público.

 
Foto: iG
Mas tudo isso pode ser bem considerado no próprio texto, inclusive a alternativa à inumana ideia de “emprego”. Sem um trabalho que faça sentido, até o mais rabugento dos críticos às bolsas rogaria ajuda governamental. Ou não, continuaria na cega subordinação, tendo apenas o salário como recompensa. Conformismo crônico, morbidade moderna.

No entanto, também está presente no supracitado texto a observação de que a política de benefícios sociais através de bolsas não é a ideal. E não o é por não tocar na estrutura. Por mais que milhões de pessoas passem a ser economicamente ativas, seja lá o que isso valha, esferas cruciais da justiça social não são contempladas.

É o caso da educação, unânime base para tudo. Houve um aumento do acesso a universidades, privadas, com enriquecimento da população. Mas não se assegura qualidade quando a educação se torna alvo de uma população economicamente ativa, consumidora. Torna-se produto, consumo, coisa.

 A crítica à política de bolsas deve delatar o enorme risco, paternalista e eleitoral, de um assistencialismo crônico. Não que os assistidos se acostumem ao benefício, mas que o governo se limite a dá-lo.

Quanto ao imperativo cidadão do acesso à educação, tem sido de grande sentido a mobilização das universidades federais em torno de condições docentes e discentes decentes. A maior mobilização do tipo no país não tem sido considerada nem pela grande mídia, nem pelo governo.

A paralisação tomou proporções alarmantes e tem tocado em feridas abertas há séculos na terra brasilis. Não se faz um país sem bem formados cidadãos. Não se faz um povo sem bem formados profissionais. Não se faz um Estado sustentável sem um protagonismo da educação.

Para tanto, não só não basta o acesso a universidades privadas, como também esse acesso perverte o propósito da educação. Direito do cidadão e dever do Estado.

Dever e interesse. Afinal, com bem formados e remunerados médicos, biomédicos, enfermeiros, psicólogos, fisioterapeutas e afins, a universalização da saúde pode ser atingida, com propósitos mais humanos e menos comerciais. Com bem formados e remunerados professores e pesquisadores, as metas de educação serão realidade, sem o abismo de segregação entre escolas públicas e privadas, e com ênfase à produção intelectual crítica e acessível.

No entanto, os frutos desse cultivo são de longo prazo. Desinteressantes num país cujo sistema político ainda é sujeito aos humores eleitorais.

Não se justifica a postura pouco diligente do governo federal em, primeiro, discutir a situação com os sindicatos dos docentes das universidades federais e, segundo, trabalhar propostas que deem conta das reais necessidades do ensino superior público. Em planos ousados.

Espanta, ainda mais, toda a intransigência exposta pelo MEC desde o início da mobilização. Afinal, os que lutaram pelo direito à greve e inclusive à educação gratuita e de qualidade num Estado justo, hoje comandam um governo com pouca disponibilidade a negociações.

Um governo que ainda se rende à anacrônica estrutura das alianças e lobbies em oposição à sustentação popular. Um governo que deveria aumentar seu percentual de investimento na educação para mais dos 20% atuais, deixando a estados e municípios, entes desconhecidos muitas vezes, o restante.

O PL8035/2010, Plano Nacional de Educação para o decênio 2011-2020, aguarda recursos na câmara. Até então prevê 10% do PIB para a Educação, uma dura conquista contrariando o plano inicial do governo.

Os programas sociais são essenciais pra um povo que carrega o fardo da desigualdade há 5 séculos. Mas sem condições de trabalho, desenvolvimento e acesso à educação pública e de qualidade, as mesquinhas críticas ao comodismo das bolsas tendem a ganhar razão e certo apoio na realidade.

domingo, 29 de julho de 2012

Sejamos "sujos"


Em poucos momentos antes, na história deste país, a liberdade de expressão foi tão atacada, em regimes democráticos, quanto nos recentes tempos. Com eleições municipais tomando os ares da socialização virtual, fanatismos, partidarismos e mesmo críticas responsáveis são duramente atacados pelos atacados, pelos ofendidos. É o tempo de se pensar em política, lamentavelmente.

Com lamento porque não há tempo para se pensar em política. Essa se vive, dia-a-dia, inescapavelmente. Ou nunca reclamamos da corrupção por pensar em política a todo tempo, ou reclamamos da corrupção a todo tempo por nunca pensarmos em política. Questão de escolha e compromisso, individual e coletivo.

Mas como o processo eleitoral é bienal, a mesma frequência se vê nas acirradas disputas registradas em blogs e redes sociais. É tempo de se tirar a indumentária de cidadania do armário, por mais que seja só para rosnar os já cansados "palhaçada", "ladrão" e choros similares.

O que move o posicionamento político em período eleitoral pode assumir diversas e caricatas facetas:

Há os cegos militantes que defendem alianças sinistras a qualquer custo, vítimas de um sistema partidário anacrônico que alimentam..

Há os cegos militantes que culpam os outros pelas mazelas criadas por seus próprios representantes, vítimas da má-fé e da cumplicidade, por vezes criminal.

Há os cegos eternamente chorosos, que papagueiam que horário político é cardápio de ladrões e que voto não muda nada, só há corruptos, vítimas da preguiça e do narcisismo.

Mas há, escassos, os que a todo momento pensam em política e carregam razões, feridas e esperanças em anos de eleições. Numa análise não muito científica, pode-se constatar que desses, a grande maioria pode ser considerada "suja" pelos recentes e renhidos ataques da campanha José Serra.

Dos principais alvos da colérica birra da campanha tucana, constam os jornalistas PH Amorim e Luis Nassif. Mas creio ser grande a lista dos que reivindicam um espaço nesse leque dos "sujos". Eu mesmo me coloco nesse hall, com a modéstia pra escanteio.

Me considero sujo por usar um espaço público e um direito constitucional para me pronunciar  e me manifestar politicamente. Já compus algumas vírgulas sobre a precária carreira política de José Serra, neste mesmo blog.

A ideia é prosseguir na função, da crítica, da revelação, da denúncia, do debate. Por que é de liberdade de expressão, de informação e de pensamento que também se faz um país, se faz um povo.

Sejamos sujos por não aceitar a sujeira de São Paulo. A sujeira de aventureiros imobiliários, do predomínio absoluto do transporte individual, a sujeira da ausência de coleta seletiva e das sujas fichas públicas dos que reinam na suja Pauliceia. Enfim, sejamos sujos por querer limpar.

Sejamos sujos, mas não na acepção asséptica da palavra, tão presente, por exemplo, nas mucosas nasais. Sejamos os sujos de Serra, os lobos do lobo, os “nazistas” dos que beiram o nazismo. Não por fanatismo partidário, cega obediência ideológica. Mas por tato do dia-a-dia, pé na realidade e vergonha na cara.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Bolsa sim, “emprego” não!


   
Foto: Felipe Gesteira
Desde a instituição de programas sociais como o Bolsa Família pelo governo federal, a imaculada ala dos corretos chia com a concessão dos benefícios: “bolsa-esmola!” bradam os infecundos críticos de qualquer coisa; “Só querem bolsa, trabalho nada!” impugnam os incorruptos advogados da moral classemedista.

No entanto, mesmo estufando o peito com ares de exegetas político-sociais, de nada sabem esses presunçosos desinformados das coisas palpáveis, do alto de seus apartamentos, carros, celulares e Facebooks.

Criados em ambientes confortáveis, tendo televisor toda vida, computadores, educação e lazer à altura das mimadas mãos, jamais sequer imaginaram os perrengues por que passam romarias de despojados que nascem, vivem e morrem pobres, há séculos, sobre o chão brasileiro.

Não é a intenção moralizar. Mas não são válidos, muito menos éticos, comentários cotidianos boiando na superficialidade do conhecer humano. A tendência dos que são contrários aos programas de transferência de renda é a de repetir um discurso desbaratado, carregado de moralismo e sem pé na realidade. Isso porque julgam o caboclo pobre dos rincões nacionais à luz de seus quartos aconchegantes e bem decorados.

Exemplo semelhante veio das doutas mãos de Luiz Felipe Pondé, ao criticar os que analisam a realidade dos indivíduos tendo o social como pano de fundo. Sem entrar em pormenores, o venerado filósofo do horário nobre considera sensato supor a realidade de indivíduos socialmente oprimidos do alto de seu confortável habitat nos Jardins, Higienópolis ou arredor análogo.

É fácil, e cômodo, descortinar o chavão de que fulano vai se acomodar com o dinheiro, não vai querer trabalhar e, por grosso silogismo, vai viver à custa do Estado. Esse raciocínio é inocente, ou farto de uma deletéria lógica “arbeit macht frei”.

Inocente, pois boia na onda e repete, papagueia simplesmente. Ecoam por essas vazias mentes também urros de “político é ladrão”, “Fora Sarney!” e, mais recentemente, um obsessivo “#vetaDilma”. Como são, por que são e quais as intenções de ser desses programas de transferência de renda são enigmas abstrusos e insolúveis para quem está mais empenhado com seus próprios apetites.

Quanto à honra do “trabalho liberta”, não há aforismo mais anacrônico. E, como os da inocência, os que agitam essa bandeira não enraízam suas convicções. São aqueles que cobram corte de bolsas porque o “pobre acostuma”, e apontam o dedo condenando o cidadão ao batente. “Vai trabalhar, vagabundo!”. Mas são também esses indefectíveis críticos que resmungam de segunda-feira, do trânsito e do fatal e maldito final do fim-de-semana.

Não há argumentos que sustentem, sob o ponto de vista da saúde do ser humano, o emprego como algo que liberte, engrandeça ou garanta uma vida saudável para um e para todos.

Os que defendem trabalho assalariado para os beneficiados por programas sociais, além de carregarem uma moral do lucro, para regozijo daqueles que verdadeiramente lucram, ainda passam longe da compreensão do ser humano como autor de sua própria vida.

Essa repreensão sequer reflete sobre o sentido do trabalho. E, mesmo reclamando do patrão e das outras cruzes de suas próprias atividades remuneradas, essas críticas almas repetem incessantemente o adágio da moral “vai trabalhar!”.

São falsas muitas das condenações ao Bolsa Família. Não é o programa ideal. Mas num país (leia-se cidadãos, governos e setor privado) que cultivou, e ainda cultiva a desigualdade econômica, política, social e cultural, essas medidas são urgentes.

Urgentes para que muitos brasileiros tenham o que comer, como se vestir, como comprar remédios, tenham condições de estudar. São medidas urgentes para se criar condições nas quais os beneficiados possam crescer. Mas só crescerão de fato quando a moral do emprego assalariado der lugar ao movimento pela cidadania, pelo trabalho coletivo, cooperativo, social e com sentido para o cidadão, para o povo e para o Brasil.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Vida de assalariete

As empregadas domésticas do fantástico mundo
da Globo são popstars. Mas na prática a teoria é outra.
Por fonte não muito confiável, a própria emissora, tomei conhecimento do aloucado, delirante e cavalar enfeite deitado sobre o trabalho de empregada doméstica numa das novelas globais. As “empreguetes” acordam cedo, moram longe do emprego, pegam condução cheia, enfrentam o desdém da patroa, a exploração das filhas da patroa, só conseguem pensar no sofá de casa e, mesmo assim, viram superstars.

A boa e velha ode ao trabalho servil, sofrido, mal pago, sem sentido e sem futuro. Não é de hoje que a Rede Globo exalta e decora fantasiosamente o sofrimento diário e de toda vida do assalariado, ou assalariete.

Em novela recente, uma dona de casa enfrenta preconceito do filho, dificuldades financeiras, trabalho exaustivo e toda espécie de fado de qualquer outro trabalhador. E, como também calha diariamente a qualquer outro trabalhador, ganha na loteria.

É chique ser assalariete, dá até na novela. Você que tem empregada doméstica na sua residência seguramente já parou para refletir sobre o trabalho da moça que lava seu vestuário íntimo. Se não, tente, pelo bem da sua consciência. As profissionais reais vivem uma rotina sem brilho.

Arte que institui e adorna o abismo social que predomina no país deve ser contestada. As atrizes Taís Araújo, Isabelle Drummond e Leandra Leal podem ser chamadas de “Cheias de Charme” sem muito receio da névoa da imprecisão.

Mas a questão é se vale a pena interpretar empregadas que viram estrelas, ou se mesmo podem representar as empregadas domésticas espalhadas pelo Brasil.

Não que estejam moralmente impedidas de interpretar. É da natureza de profissionais cênicos encararem os mais contrastantes papéis. As mais diversas realidades. Além de todas as três carregarem experiência e reconhecimento, são grandes profissionais.

Mas transmitir, com luxos excêntricos, o júbilo de enfrentar desdém, exploração, transporte ruim e rotina desgastante, foge ao bom senso e mesmo à realidade que desejam representar.

As gatas borralheiras contemporâneas pintam conquistas na irrealidade, no imaginário. Ao mesmo tempo, a realidade palpável da emissora que faz o circo é a de atalhar sucessos das pessoas representadas em suas novelas. Fazer sonhar é mais rentável que realizar sonhos. É o sistema.

É tradição do “padrão Globo de qualidade” pintar, com as melhores cores, as tragédias nacionais. Foi assim durante o Regime Militar com manipulação de notícias e imagens; é assim com o jornalismo partidário e encobridor da corrupção envolvendo parceiros da emissora; e naturalmente, pelo mesmo caminho, segue o entretenimento de antolhos que conforma o assalariete à sua devida condição, tão promissora na ficção.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Pecado: capital


O ladrão quer, o professor quer, o policial quer assim como o traficante também quer. Você quer, o político corrupto quer, sua mãe quer e até o irregular pedinte de metrô ainda quer. O médico quer, o empresário sempre quer, o funcionário quer e até o índio passou a querer.

Vendaval ou solução, o certo é que já passamos do antropocentrismo e orbitamos outro núcleo, mais rentável. Nenhuma evolução é linear, e só é progressista se a fazemos assim. Deus, o homem e o dinheiro. Podemos assegurar com retas sentenças que o mundo gira hoje em torno do último, seja através do primeiro ou do segundo.

Do miserável ao milionário, estamos todos condenados à lógica das cifras. Invariavelmente, temos o nosso valor, o nosso valorar. Somos compradores e comprados, consumistas e meras moedas de troca.

Não é espantoso o fato de que todos os nossos dias perseguimos um objetivo que se vai por aí? Somos incitados pelo imperativo do dinheiro. E, ao mesmo tempo em que somos usurpados, perseguidos, subjugados e oprimidos por ele, a ele sempre tornamos de braços abertos.

Mais do que qualquer outra razão, o dinheiro nos faz perder horas de nossas vidas a executar um trabalho sem sentido, ao qual fomos empurrados e sem o qual sofremos as mais doídas dores que o humano pode vender.

O dinheiro nos joga uns contra os outros. Compra alegrias, tristezas, fantasias, compra liberdade. Usamos um mundo sombrio em que educação é consumida e saúde é comprada.

Os crimes - do furto ao parricídio, do sequestro às guerras civis – boa parte deles têm o dinheiro como motivo, ou a falta dele, mais precisamente, como ensejo. E mesmo sendo o gatilho da violência, da segregação e de tantas outras tribulações de uma espécie tão desenvolvida, ainda reina triunfante sobre nossas existências.

Alternativas sempre há. Aquelas que priorizam o essencial, o humano, em vez do intermediário capital. Mas é duro reverter a situação. Sobretudo em lugares em que as raízes do privado estão tão encravadas nas costas do trabalho e os braços do dinheiro agarram a humanidade por todos os lados.

A discussão é eterna. E em momentos de crise ela deve ser travada com mais seriedade. O sistema erigido sobre a propriedade, o lucro e o salário com a compra da atividade não é solidário, não é coletivo, não é humano.

No entanto da discussão deve se passar à práxis. Em ano de eleições esses pontos mais fundamentais devem abalizar propostas de realização concreta. São Paulo já mostrou para todo o mundo que não tem vocação para o coletivo, sobretudo centrifugamente, dado o claro conservadorismo nos bairros centrais que sustentam a atual administração.

E de nada valem esforços para minimizar efeitos devastadores do capitalocentrismo, por mais cobertos de adornos de boa vontade que estejam esses esforços, como campanhas disso e aquilo. São paliativos, e na maioria das vezes escondem perversos desígnios.

Se não se aponta o fundamento dos principais males humanos, qualquer cuidado é anódino. Aliena, conforta e conforma conforme a cobiça de quem faz a cabeça das pessoas.

Dia-a-dia vendemos nossos sonhos, nosso ser, nossa liberdade, em troca da subsistência que o dinheiro autoriza. Desistimos de nossos desejos para realizar desejos estranhos aos nossos, em troca de migalhas de uma sustentação, toda a vida.

É bom a humanidade dar outros passos, coletivos e, imprescindivelmente, impreterivelmente humanos. Caso contrário, não carregaremos mais o dinheiro, mas continuaremos por ele carregados.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

O PT de Erundina não existe mais.


Existe um debate político sério que resume o velho dilema de quem não está no poder: Continuar fiel à sua ideologia, tentando conquistar a opinião pública através da argumentação, ainda que esse processo seja demorado e muito possivelmente infrutífero, ou aceitar uma flexibilização para adaptar-se a novos eleitores de forma mais rápida, mesmo perdendo sua identidade.

Esse é o cálculo político que, em tese, massacra a cabeça de marqueteiros e candidatos a cada 4 anos (ou a cada dois, dependendo de quem estamos falando). Em tese, que na prática, a teoria é outra, como nos mostrou o PT recentemente.

A ideologia partidária foi assassinada há muito tempo pelo fisiologismo, que os pesares que temos vistos são até antiquados. Taí a lei que impõe a fidelidade partidária aos políticos pra provar que, só por ter sido necessária, já mostra o valor da identificação entre partidos e candidatos.

As bandeiras dos principais partidos hoje não são mais que grifes políticas: brilha mais aos holofotes quem estiver no PT ou no PSDB, apita entre estes quem está no PMDB ou DEM, e o resto se espreme entre no máximo mais 10 partidos. Não há nem mesmo ideologias políticas suficientes para dar conta de tanto partido que o nosso sistema abriga. O Fundo partidário, no entanto, justifica a existência de todos.

Vai daí que temos a esdrúxula aliança do PT paulistano com Maluf, que comprometeu inclusive, sua feliz aliança com um dos símbolos de integridade do partido, Luíza Erundina, hoje no PSB. Ambos representam a morada da ideologia dos nossos tempos: a ideologia do indivíduo em quem se vota - a despeito de seu partido.

"A gente vai conseguir um bom tempo de TV, e ..."

O cálculo político não é complexo. O eleitorado paulistano é udenista: opositor do que considera populista, conservador, crê no mito da segurança pública via repressão, tem aversão à corrupção (sobretudo a que supostamente enriqueça os candidatos opositores) e desenvolvimentista. Maluf é a síntese prefeita dessa ideologia, tem uma frase de efeito pra cada pré-requisito. E mesmo chafurdado em denúncias, e mesmo depois do Pitta, ainda influencia em boa parte do voto "bandeirante".

Se saísse candidato hoje, uns bons 8% ficariam com o Maluf. Nada, nada, dá uma briga por um terceiro ou quarto lugar. Isso não faz jus ao currículo do Dr. Paulo, muito menos à necessária renuncia ao cargo de deputado federal para entrar em campanha. Por outro lado, a chance de voltar a fazer parte do executivo, dos holofotes, e a doce voz de Lula devem ter feito Maluf repensar seu ostracismo.

Talvez Haddad não consiga abranger os votos de todos os simpatizantes do Maluf. Mas este é um eleitorado que jamais votaria no PT. Para além dos minutos de TV, Haddad tira votos do Russomano (hoje no PRB, seu 5º partido), que são votos ainda em disputa. Vale ressaltar, a amizade entre Maluf e Russomano é a igual a de Alckmin e Serra. Realpolitik no seu estado mais transparente, pois.

Já Luíza Erundina (PSB) é uma espécie em extinção. A ex-prefeita de São Paulo praticou o tal Realpolitk ao entrar no governo de Itamar, oposição clássica de seu partido, mas convenhamos, os tempos eram tão outros que foi substituída por um militar. Foi um movimento de autonomia, em oposição ao seu partido, talvez precipitado, inclusive, por tão pouco que durou. Hoje, ao abrir mão de montar a chapa com Haddad, ela novamente personaliza sua ideologia própria, e paga o preço por sua coerência.

"o que você achou da proposta, Deputada?" 

Apesar de decepcionado, o eleitorado petista deve manter seu voto. O que não está sendo mantida é a identidade do PT. O partido escolheu usar as armas do inimigo para vencer a batalha, às custas de sua história e identidade. O que não é muito diferente de assumir extinção do projeto original, ou o que restava dele, e ainda interessava Erundina.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Cidade virada


Em São Paulo as coisas adequadas acontecem em doses. Goles de cidadania num mar de barbárie. Chega a ser piada de mau gosto celebrar as episódicas viradas que tomam todo um dia de fim de semana, cada uma. Otávio Augusto, imperador romano, ao menos dava o panis com o circenses. Em São Paulo fica só o circo, porque a galinhada é pra poucos.

Crianças fumam crack no bairro da Luz, um dos palcos
de eventos como a Virada Cultural.
A Virada Cultural seria uma política perfeita, fosse a cidade amistosa com artistas e o entretenimento mais acessível ao público. Em outras partes do mundo, funcionaria como estímulo à arte e cultura. Mas onde a divulgação de material de artistas de rua já foi proibida pela alta cúpula municipal, a cultura fecha as portas para muitos.

Contando ainda com a dificuldade de acesso a teatros, museus et similia. Com políticas que evidenciam cada vez mais um potencial de apartheid na Pauliceia, as opções suburbanas de cultura se reduzem, na maioria das vezes, aos cinemas das grandes redes, e olhe lá. A cultura é concentrada no centro, onde poucos têm realmente acesso. O transporte público trafega em horários limitantes, além de taxis, estacionamentos e ingressos que restringem a difusão da cultura por outras partes da cidade.

O negócio pra maioria é esperar a próxima dose da virada cultural, com ou sem a afamada galinhada. Ou atentemos a candidatos que têm propostas reais para educação e cultura para toda a cidade neste ano.

Os esportes também ganham seus quinhões de atenção. A Virada Esportiva tem o propósito de realizar atividades pela cidade. Temos arenas no Anhangabaú, onde normalmente encontramos poças de urina, trabalhadores apressados e andarilhos numa cidade sem alma. Além de outros pontos em que o esporte é estimulado, anualmente.

Mas nas escolas públicas pouco se produz de incentivo ao esporte. O sistema CEU implantado em outra gestão tem o intuito de levar à periferia um constante trabalho de estímulo a atividades esportivas, artísticas e culturais, paralelas à educação formal. No entanto é pouco. Com poucos parques e áreas verdes e ludibriados sonhos de ciclovias, as opções são limitadas, sobretudo, a clubes privados.

Continuemos tendo como sinônimo de esporte a torcida pelo time, no sofá. Ou olhemos e escolhemos com atenção iniciativas que já deram sucesso e podem trazer novo fôlego esportivo à cidade, sem segregação, a partir deste ano.

Por fim, vem aí a Virada Sustentável, de iniciativa privada, com exposições, oficinas e demais atividades voltadas ao meio ambiente, direitos humanos, biodiversidade e mudanças climáticas.

Ao menos uma vez por ano, se a moda pegar. Pois pra uma cidade que assiste à gentrificação e caça a dependentes químicos, a preferência da prefeitura pelo transporte privado ao público, a ausência quase completa de coleta seletiva, que também sofre com o reduzido número de áreas verdes, com o deslocamento da criminalidade para a periferia, níveis de poluição e trânsito alarmantes, dentre outros retrocessos sociais, não cabe, para essa cidade, o selo sustentável.

Assim, por aqui as boas iniciativas são episódicas e carregadas de propaganda: circo. A política pública paulistana é virada, só de viradas. No resto do ano a cultura é cara, o esporte se reduz à academias e a sustentabilidade passa longe da selva urbana. Já passou da hora de cultivar outra virada, também sustentável, a partir deste ano.