terça-feira, 24 de maio de 2011

amanda gurgel e #preçojusto. A opinião pública líquida.

A baba já molhava a camisa quando os fortes aplausos, pela acústica do teatro, tiram o desacostumado espectador do sono. Ele desperta, considera o figurino dos atores muito bonitos e aplaude, motivado pelo movimento dos pares de mãos em seu redor, sem saber bem do que se trata a peça. Já vai arrumando sua roupa quando a acompanhante lhe adverte:"- sente-se! Esse é o final do primeiro ato, babão!"

Dias atrás, o discurso brilhante da professora Amanda Gurgel excitou o senso crítico da população. Brilhante em sua argumentação e com a eloquência que a dignidade confere à sua oratória, a professora filiada ao PSTU reclamou da leniência com que as autoridades atentam às mazelas da educação pública.

"Por favor, salvem a professorinha!!!" O bordão de Caco Antibes resume o clamor paulatino de colunistas e tuiteiros que sucedeu a divulgação digital do discurso. No youtube, o vídeo já ultrapassa um milhão e meio de espectadores, os quais majoritariamente endossam a manifestação de Amanda.

Seria o caso de incensarmos as mídias sociais por seu caráter potencializador da disseminação do debate político, da crítica e da preocupação com questões sociais. Talvez não, a Internet ainda é democrática em sua capacidade de popularizar discussões e opiniões (logo não o será, no que depender do "casal Flintstone" Ecad e Ana de Holanda).

Felipe Neto, em mais uma de suas ilustres contribuições para a formação do intelecto teenager (já que a palavra adolescente está perdendo o sentido mesmo), fez um video pra criticar os impostos dos produtos eletrônicos. Forte concorrente de Hollywood e do Projac como gerador de celebridades, o Twitter foi o caminho do vlogger, que foi via trending topics ao estrelato.

Discursando pelos mesmos 8 minutos que a professora, o nosso Jhonny Brabinho conseguiu mais de 4 milhões de views e aproxima-se da marca de 600 mil assinaturas para o seu manifesto geek (esse pessoal que se declara "nerd que transa". Só que sozinho não conta, "galere"), através do portal Brasil 247, uma espécie de revista Veja para Tablets (se pá isso explique o conteúdo neoiberalista do manifesto e o foco em produtos eletrônicos).

O feito do Rapaz é ainda mais impressionante quado se considera que 4 min do vídeo se resumem a incessantes palavrões. E eles representam o que melhor se aproveita de todo o roteiro. O restante é pura e velha conversa liberalista barata do "ah, o governo te rouba quando cobra impostos" ou "ah, a classe média é que sai lesada dessa história toda".

Qualquer cientista político deve entrar em parafuso pra explicar essa ideologia de navegador, à qual se filiam hordas de monitores brasileiros. É uma espécie de programa de calouros , um "ídolos do palanque", a concretização da proposta que o horário eleitoral gratuito para deputados e vereadores há tantos anos propusera com seus candidatos fanfarrões.

O pessoal só não entendeu a drástica incompatibilidade entre as propostas. Que, se você quiser uma educação de qualidade, cortar o ICMS pra baixar o preço do Ipad não vai ajudar. O imposto, nem 10% dele, na verdade, é o que banca as universidades do estado de São Paulo.

Nossa carga tributaria é relativamente alta. Relativamente, pois, apesar dos nossos impostos representarem 34,4% do PIB (a média da OCDE tá por aí, mas há quem diga queémaior, que esteja pelos 40%) e o os dos EUA, por exemplo, representarem 28,8 %, o Brasil arrecada de cada bolso cerca de R$4 milão, diferente dos gringos, que sacam do cidadão R$13 mil.

Ô seje: a arrecadação per capita dos caras é 3x a nossa. Nem resaltemos que a população lá é um pouco maior que a nossa, já que os serviços do Estado devem atender à todos os cidadãos. Mas vale lembrar que lá serviços como saúde e educação superior de qualidade não são oferecidos pelo governo.

Seria pedir demais, mas pra ser levado a sério, o povo do twitter deveria escolher entre bancar a sua faculdade ou seu tablet. Ou, em outros termos, sua possível profissão, ou sua fonte de entretenimento e, possivelmente, de informação.

Claro que, a julgar pelos frequentes Trending Topics, a escolha desse pessoal seria óbvia, o post é só pra lamentar que o Felipe Neto tenha muito mais chances de se eleger que a Amanda Gurgel.

2 comentários:

Yuri disse...

Primeiro, a maioria só se levanta contra "o governo" quando incomoda a parte mais sensível do corpo: o bolso. Segundo que, pra essa galera encadear um raciocínio que chegue a uma compreensão do que é imposto e de como deveria ser cobrado...eis o enigma que meus esforços acadêmicos hão de desvendar! Sensacional, Thiagão! E o "líquido" é referência ao Bauman?

Thiago Teixeira disse...

não deveria ser, posto que nunca li mais que entrevistas do Bauman.Mas como o conceito não é lá tão complexo, achei conveniente me apropriar.
Opinão púbica só bate forte em quem tá com a guarda baixa. É covarde. Faz parte do jogo usá-la pra bater no adverasário. Sempre deu certo.