terça-feira, 10 de janeiro de 2012

O ciclo policial opiáceo II ou “Ai, se eu te pego.”


A fortiori, devo retornar à polícia. Pela força dos acontecimentos, incógnitos até aos caudilhos pilotos da “Locomotiva do País”, a função policial necessita de outra apreciação. Seria cômico, não fosse trágico, o gato e rato que deu ares na famigerada “cracolândia” na primeira semana de 2012. Atabalhoadamente, é assim que os problemas de saúde naquela área são manejados.

Correria! No embalo do sucesso “Ai, se eu te pego” de Michel Teló, o segundo escalão da Polícia Militar do Estado de São Paulo inaugurou a corrida atrás do “noia”. Sirene, correria, “mão na parede!”. Será que alguns usuários largaram o crack pelo susto?

Já não bastava o atropelo no processo, uma vez que o prefeito planejava inaugurar um galpão para tratar massivamente os adictos, a operação parece não ter sido deflagrada pelo governo civil do estado de São Paulo.

Policial pegando usuário na Cracolândia. Foto: Terra
Uma operação dessa magnitude não pode não ser do conhecimento das autoridades paulistas. Logo, ou coronéis da PM têm autonomia para agir repressivamente em casos de saúde pública ou Alckmin tirou o seu da reta diante do grotesco procedimento. De tão desastrada a operação, chegou até a promover a “procissão do crack”, na qual as velas foram trocadas por cachimbos com a pedra.

No entanto teve início a “operação sufoco”. “Nossa! Nossa! / Assim você me mata.”

E o sufoco foi literal: farda no corpo, cassetete na mão e “Ai, se eu te pego. / ai, ai, se eu te pego”. Faz o quê? Internação compulsória? Cadeia? Chute, imobilização e gás de pimenta?

O velho hábito, já conhecido da população paulista, de resolver os problemas sociais com medidas paliativas e eleitoreiras vingou outra vez. É de espantar que depois de tanto tempo de uma mesma gestão na prefeitura, e de uma gestão ainda maior no estado, o plano final tenha sido a correria e o enclausuramento involuntário.

Ao que tudo indica, os secretários estaduais e municipais de saúde do feudo paulista têm a mesma mentalidade dos secretários de segurança, chumbo grosso, da dinastia tucana. Isso se não forem coronéis reformados, que ganham cargos, mas não são ministros para sofrer perseguição.

Novamente a violência é generalizada. Há violência contra o usuário que, ao contrário do discurso conservador, não está ali porque gosta. Há violência contra os moradores da região, afinal a disseminação só aumenta. E há violência contra os próprios policiais que, já não bastava o inútil trabalho de ter que revistar aluno da USP dentro da biblioteca, agora precisa correr atrás de usuários e prender “traficantes” no famoso trabalho de formiga. Exigir da polícia que se resolva o problema é injusto com os próprios policiais.

Vale dizer que a política de internação compulsória jamais resolverá o problema. Essa Bastilha do Crack tem mesmo contornos higienistas, como o próprio sistema de enclausuramento de delinquentes, de criminosos.

Privar o usuário de uma reinserção social, mesmo que São Paulo hoje não ofereça o ambiente ideal, é um passo dado na contramão da resolução da questão. E a figura do galpão para tratamento, não só porque tenho lido Foucault, o desafeto de Pondé, é de uma investida pouco terapêutica.

Sinceramente, de nada adiantam profissionais da saúde, organizações que atendam usuários e pensadores da questão bradando, no fim. A política da dinástica gestão estadual e a da deletéria e cínica gestão municipal jamais enfrentarão o problema com a justa sabedoria social. Até porque, eles próprios vivem na contramão de uma sabedoria verdadeiramente social.

Até as próximas eleições, “sufoco”! Nesse ínterim, estado e município estarão a caçar embananadamente os pacientes e incoerentemente os problemas cruciais de São Paulo.

“Ai, se eu te pego!”

Um comentário:

Gabriel Musta disse...

Ao menos parece que alguém começa a enxergar a realidade... http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/1032475-promotores-abrem-inquerito-para-investigar-acao-na-cracolandia.shtml

Mas será que há força ou tempo suficiente?

Ótimo post!! Triste, mas não surpreendente, que mais uma vez as políticas públicas em São Paulo sejam conduzidas de forma reacionária e, é claro, elitista.