sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Ágora ou nunca


Jean-Jacques Rousseau
No ano de 1753, o pensador genebrino Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) se dedicou a responder uma questão proposta pela Academia de Dijon, com direito a premiação, sobre qual seria a fonte da desigualdade entre os homens e se essa desigualdade seria, por assim dizer, aprovada pela lei natural. Rousseau não venceu o concurso, mas a civilização ocidental foi laureada com uma obra que até hoje deve ser apreciada.

Um pouco mais cedo, antes de Cristo, a civilização grega gozava de um sistema político que perdura por mais de 200 anos depois da morte de Rousseau: a democracia. A ágora era o espaço público principal da pólis: mercadorias eram comercializadas, julgamentos populares eram realizados e, sobretudo, era o lugar onde todos os cidadãos (homens adultos livres, na época) discutiam política e tinham direito a voz e voto. Mais precisamente, como conta Aristóteles na Constituição de Atenas, a assembléia, ou ekklésia, era o lugar em que os cidadãos se reuniam para deliberar os destinos da pólis.

A principal tese de Rousseau em seu Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens é a de que, quanto mais “aperfeiçoado” e distanciado está o homem de sua condição natural, mais a desigualdade tende a crescer. Num dos melhores adágios dessa sua resposta ao concurso da Academia de Dijon, Rousseau professa que todos os males dos homens em sociedade vêm muito mais de seus erros do que de sua ignorância. Para o ilustre pensador genebrino, que também alicerça a crítica à propriedade privada antes de muitos, a sociedade corrompe o homem natural e é a geradora da desigualdade.

Um pouco mais tarde, ao cair de 2011 d.C., os interessados no destino do mundo se surpreenderam com a decisão do governo grego de realizar um referendo para aprovação do pacote de austeridade, honrando um dos melhores legados que aquele povo nos deu. A surpresa durou pouco: o referendo foi suspenso logo em seguida. A ágora grega de outrora perdeu seu caráter democrático para a perversão do progresso gerador de desigualdades. Rousseau, que também escreveu n’O Contrato Social a imprescindibilidade da voz e voto de cada cidadão nos destinos da sociedade, hoje poderia reprochar com a humildade que lhe era peculiar: “Je vous ai averti!” (Eu lhes avisei!).

Foto: Sapo.pt

Na Grécia de ontem, homens adultos e livres decidiam diretamente os destinos da pólis, pois eram cidadãos. Na Grécia, e no mundo, de hoje, os bancos, investidores e as grandes corporações, “1%”, herdaram a cidadania de todos e concentram para si os destinos de todo o planeta. Um irretocável e invejável aperfeiçoamento da democracia!

Século a século a ágora ruiu. Agora, ou a reconstruímos, ou ficamos com o “nunca” desse depravador progresso. Pois os ventos da história, via Éolo, hão de sempre ecoar e nos provocar:

“Je vous ai averti!” 

Um comentário:

menino do saco disse...

Lindo texto.
Todas essas pasteurizações históricas e hoje 1% "herdou" o que um dia chamamos de governo de todos. Democracia parlamentarista/representativa/whatever usurpa o nome da real democracia.