sexta-feira, 20 de abril de 2012

O balanço do “palhaço”


Há cerca de um ano escrevi, neste mesmo blog, meu primeiro texto. Tratava-se de uma crítica à espada dos bons costumes que os moralistas políticos empunhavam contra Tiririca, o “deputado palhaço”. A pudica e ilibada pose dos que ecoam como injúria o fato de um palhaço ser deputado ainda é grande, grande como a ignorância que dedicam à política nacional.

Pois bem. Passado esse tempo, surgiram rumores de uma eventual candidatura de Francisco Everardo, o Tiririca, à prefeitura da maior cidade do hemisfério sul. Os castos gritos de desagravo novamente ressoam nessa treva de cidadania. Mesmo aqueles que, sabendo ou não o que faziam, dedicaram seu voto a Gilberto Kassab, acham censurável um palhaço no comando da cidade.

Para retificar essa carência de informação, julguei prudente trazer à tona um balanço da legislatura de Francisco Everardo, o Tiririca, para que os delatores imaculados encontrem um pouco de paz para suas lamúrias.

Assiduidade. No ano de 2011, Francisco Everardo se ausentou de apenas duas sessões ordinárias no Congresso, uma em 23/03 e outra em 27/09. No entanto esteve presente nos mesmos dias em sessões extraordinárias, fazendo com que sua frequência em plenário tenha sido de 100%.

No presente ano, Francisco Everardo se ausentou no dia 27/03, mas mais uma vez apenas na sessão ordinária, estando presente na sessão extraordinária do mesmo dia. Novamente 100% de assiduidade em 2012.

Tiririca é também titular da CEC, Comissão de Educação e Cultura da “casa”. Aqui sua assiduidade não foi exemplar, para delírio dos probos paladinos dos bons costumes. No ano de 2011, Tiririca se ausentou sem justificativa em 9 de 66 sessões, o que lhe dá uma frequência de 86,4%. Já em 2012, ainda titular, se ausentou apenas em 11/04, até então, tendo 83,3% de presença.

Em sua atividade parlamentar, Tiririca tem se focado em questões que concernem à sua comissão e, sobretudo, à sua experiência profissional. Tem defendido os interesses de artistas circenses e junto aos ministérios da Educação e da Cultura, tem atentado a programas culturais com fins educativos.

Ao contrário do que muitos íntegros patronos da probidade advogam, palhaços não são simplesmente estúpidos indivíduos que só servem para nos fazer rir. Vemos como é difícil fazer rir hoje em dia, muitas vezes sendo necessário mergulhar nas profundezas da humilhação racial e social. Mas esse é um rico diálogo que tem dado ares neste blog, lanço apenas uma breve consideração.

Tiririca procura se informar sobre ações de amparo à atividade circense arquitetados pela Funarte, tem defendido interesses de artistas circenses e a profissionalização da educação no circo.

Em matéria de direitos sociais, Tiririca é autor de um projeto que visa à criação de programas de amparo a famílias e pessoas que exercem atividades circenses e diversões itinerantes. É autor de um projeto de lei que autoriza à União a criação do programa Bolsa-Alfabetização, para alunos maiores de 18 anos matriculados na rede oficial de ensino.

Ainda em cultura, criou projeto de lei de incentivo à leitura com Vale-Livro para incrementar a Política Nacional do Livro e tornar a leitura acessível a camadas literariamente abandonadas pela excludente indústria editorial.

Os projetos de Francisco Everardo são voltados à cultura, como o “Cultura Viva” e os supracitados planos, além de defender os direitos de artistas circenses e itinerantes, inclusive a educação formal de adultos e crianças desse público.

Infelizmente, Tiririca ainda está longe de uma atuação parlamentar ideal. Mas para um país em que o eleitorado, sobretudo a classe média intelectualmente ativa, ainda reproduz o discurso moralista, presumivelmente ilibado, e alheio à realidade política nacional, o palhaço é a tradução perfeita da representatividade política.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

El Bloqueo


Em novembro de 1806, Napoleão Bonaparte deflagrara, via decreto, o bloqueio continental contra a frota mercante inglesa. Uma manobra de guerra, mais que política. Sem poder contestar o domínio da rainha sobre os mares, a alternativa protecionista, por assim dizer, do império francês, acabou por não durar muito.

A tentativa de minar a economia de uma ilha via bloqueio viria a se repetir, tal qual farsa, como preveria Marx. Também uma manobra de guerra, apesar das convenções internacionais acharem natural um país influenciar diretamente a economia de outro com ameaças a terceiros.

E o bloqueio, ou embargo, é considerado um ato de guerra desde a London Naval Conference de 1909.

OMCs e ONUs a parte, a difícil situação econômica de Cuba tem sua origem 50 anos atrás. Quem mandou derrubar uma ditadura e querer organizar um sistema econômico igualitário com supressão de opressão e criação de sistemas de educação e saúde universais?

É praxe nas aberturas da Assembleia Geral da ONU a condenação, por esmagadora maioria, do embargo econômico imposto pelos Estados Unidos desde Fevereiro de 1962.

Mas, de acordo com o que temos apreciado na guerra cambial entre os ricos e os emergentes, expondo a inutilidade da OMC, e conforme vimos nas invasões norte-americanas ao oriente médio apesar do indeferimento do também inútil conselho de segurança da ONU, as convenções internacionais são meramente figurativas, pois sanções só são levadas a cabo contra os inimigos do ocidente, nesse já batido maniqueísmo global.

A imposição dos EUA de que Cuba não tem direito de escolher seu próprio regime social e econômico trouxe severos danos ao povo cubano. A proibição de países e companhias estrangeiras e ianques de negociarem com a ilha, sob pena de retaliação, isolou Cuba e os cubanos por todo esse tempo.

O bloqueio dificulta a troca comercial de excedentes e mesmo a importação de vacinas infantis, remédios e novos métodos de diagnóstico por parte do governo cubano. 85% das patentes dos produtos farmacêuticos no planeta são de empresas estadosunidenses, e Cuba não tem acesso a esses medicamentos por conta do bloqueio.

Violação de preceitos do direito internacional humanitário que proíbe a restrição à circulação de medicamentos e alimentos, mesmo em estado de guerra.

Para a diplomacia do governo dos EUA, direitos humanos parecem ser relativos. Hão de defender esses direitos quando andarem em conformidade com os interesses nacionais dos EUA e financeiros de suas companhias.

É como aquela velha lição de História. Não que a Inglaterra não fosse humana ao lutar contra a escravidão em colônias de aliados em séculos passados, mas alforriados assalariados são potenciais consumidores, a questão humana é secundária.

Foi, por esse caminho, que o obsequioso governo dos EUA enviou ajuda humanitária a Cuba, sobretudo entre 1992 e 1995. É como o sequestrador que, por benevolente que é, joga um prato de comida no cativeiro do sequestrado.

Cuba destina 13,4% de seu PIB à Educação, o dobro do segundo colocado na América Latina e o segundo melhor nível do mundo, segundo dados da UNESCO. Ainda segundo a mesma organização, o analfabetismo em Cuba é da taxa de 0,2%, o menor do mundo. 11,3% do PIB cubano são dedicados à saúde, mais que Israel, único país na ONU que apoia o bloqueio e taxa equivalente a países como a Alemanha, segundo dados da OMS.

No entanto, com o embargo o PIB cubano não pode ser maior e consequentemente o investimento social.

Até 1959, antes da revolução, 70% das importações cubanas tinham origem dos EUA e 73% das exportações da ilha encontravam o mercado do vizinho do norte. As dificuldades impostas pelo bloqueio, como pagamento antecipado a raros produtos e trâmites de câmbio que oneram transações cubanas são realidade ainda hoje, meio século após o início do embargo.

Em 1992 com a Lei Torricelli, os EUA limitaram ainda mais o comercio cubano com navios de outras bandeiras, dificultando transações entre Cuba e outros países no mundo. Especialistas elucidam que se trata de grave violação do direito internacional.

Violando muitos acordos da OMC, do direito internacional e de convenções globais, o embargo não tem previsão de aliviamento, nem de plena retirada. Na Cúpula das Américas que ocorre nesse fim de semana, a pressão dos países latino-americanos para um relaxamento do cabresto estadosunidense virá mais uma vez à luz, como de praxe e como nas assembléias da ONU. Mas com vias à reeleição, o change de Obama não chegará tão longe, e o ato de guerra permanecerá.

Qual a razão do bloqueio? A luta dos paladinos da “democracia” e sua cruzada contra os inimigos de seus próprios interesses nacionais? Ou o medo de que um regime socialista ou comunista se mostre mais humano, eficiente e democrático que a selva do dinheiro e dos juros? Direitos humanos ou direitos financeiros?

terça-feira, 27 de março de 2012

Por favor, fique de pé - Em defesa do stand-up (ou Provocando Thiago Teixeira)

Tenho ouvido de pessoas que eu jamais denunciaria (muito menos num título de texto) que o formato de humor stand-up é um problema para o humorismo e vem sendo utilizado para fins indevidos. Não concordo. Acredito que esse velho-novo estilo trouxe de uns tempos para cá um alívio para a produção humorística nacional. Vou explicar, e para relaxar entre cada parágrafo reproduzo uma frase de um stand-up que vi por aí. 

A comédia stand-up (os humoristas não cansam de explicar) é feita pelo humorista sem figurino, maquiagem ou perucas, e é composta de um texto 100% autoral, em que o homem do microfone relata fatos do cotidiano, comenta filmes e relata experiências. Tudo isso usando os princípios básicos do humor de surpreender e fazer rir. 

“Já reparou que quando a vendedora pergunta ‘em que posso te ajudar?’ sua primeira intenção é responder ‘morrendo’?” – Rafinha Bastos

São essas regrinhas que permitiram um fôlego a mais para nossa produção humorística. Nos anos 90 e começo dos anos 2000 presenciávamos uma avalanche de personagens regadas a piadas Adão-contou-pra-Eva-e-ela-já-sabia e imitações que não saíam do eixo Roberto Carlos – Lula – Caetano Veloso – Romário – Maria Bethânia. Nessa leva, em meio a talentos, como Tom Cavalcante, Shaolin e Ceará, sobravam os de talento questionável.

"Sempre que você vai sair para uma festa sua mãe te chama num canto e fala 'filho, não vai não. Eu to um mau pressentimento...' Por que mãe nunca tem bom pressentimento?" Thiago Carmona

Deixando de lado o talento – algo mais subjetivo – iremos concordar que o essencial no humor é a criatividade e ela andava em falta. O stand-up basicamente impede isso, força uma reflexão humorística e ainda abre espaço para aqueles que não pretendem imitar vozes ou que não se sentem à vontade contando piadas por traz de uma máscara. É uma opção.

“Um dia num avião, uma pessoa passou mal, a aeromoça perguntou se tinha um médico a bordo e o cara levantou da poltrona e foi até o passageiro como se fosse um herói. Nunca vai acontecer de uma aeromoça pegar o microfone e perguntar ‘estamos com uma emergência, tem algum humorista no avião?’” – Fábio Rabin

Isso não quer dizer que esse formato de humor seja novo (Chico Anysio, José Vasconcelos e Jô Soares já fazia lá pelos anos 60) e muito menos quer dizer que todos os seus representantes sejam bons. Como toda moda, há os que copiam piadas, os que não têm graça e claro, os que testam os limites do humor e acabam recebendo vaias e críticas.

“Outro dia eu visitei Palmas, Tocantins. É estranho porque a cidade tem 20 anos. Eu sou mais velho que a cidade. Agora eu sei como a Hebe se sente em São Paulo” – Léo Lins

Ultimamente, não faltam confusões. Piadas racistas, machistas, de cunho ideológico e até aquelas em que o humorista satiriza sua própria situação e provoca polêmica (Ben Ludmer apanhou depois de brincar com o fato de ele próprio ser judeu). Onde está a novidade nisso? Em nenhum lugar. Esses estilos de piada sempre existiram. Há sim piadas pesadas e há aquelas em que o comediante erra na dose e passa a fronteira do humor para entrar na ofensa gratuita. Não é algo intrínseco à comédia stand-up. É algo anterior e que está presente em suas manifestações, mas que não podem ser traduzidos como sua essência. 

“Resolvi comemorar meu aniversário de namoro levando minha namorada para comer fora. Aí na fila do bandejão...” – Marcelo Mansfeld

O stand-up tem piadas que já perderam a graça, claro. Associações como Corintiano/Ladrão, São Paulino/Gay, Lula/Analfabeto, Hebe/Velha e Ronaldo/Travesti há um bom tempo são indicativas de textos menos originais. 

“O seriado chama Malhação e há 15 anos que não aparece uma academia. É por isso que o Mocotó ficou gordo daquele jeito” – Maurício Meirelles

O fato é que esse estilo traz um monólogo quase teatral, uma série de apontamentos e reflexões frutos de uma observação rigorosa que além de fazerem o público pensar provocam algo ainda mais saudável – a risada. A crítica está lá presente, de diversas formas, feita de diversas maneiras e não gostar da piada nada mais é do que um outro tipo de crítica. 

sexta-feira, 23 de março de 2012

Estados Unidos Aristocráticos do Brasil


Retomando o macambúzio destino do sorumbático vocábulo “democracia”, cabe contrastá-lo com demais formas de poder. Assim, um diagnóstico diferencial, para tirar a prova dos nove. Sobretudo vale inquirir e averiguar as diferenças a posteriori, baseados na experiência, entre democracia e aristocracia.

O título do presente texto já taxa a República Federativa, ou “Estados Unidos do Brasil”,como deseja José, de estado aristocrático. E não sem motivo. Intentarei perscrutar o que se apresenta como aristocrático e como democrático para chegarmos a uma conclusão razoavelmente sensata.

De volta àquelas, talvez, maçantes análises sintáticas morfológicas e semânticas do “cunho vernáculo” do vocábulo “democracia”, temos plena ciência de que o sentido deste termo, de origem grega, nada mais é do que o nobre poder do povo.

Sabemos, também, que na prática a teoria é outra. Os incontáveis adjetivos que desvirtuam o sentido da palavra atravessaram os séculos de história humana. “Democracia liberal”, “democracia representativa”, “democracia cristã” e mesmo o pleonástico “democracia popular”.

A situação é feia. E se agrava com o fomento à aristocracia brasileira. Rigorosamente, aristos, do grego, traduz-se “melhores”. Em sua República, Platão já defendia que apenas filósofos governassem o Estado. O contratualista Rousseau destaca as vantagens de um governo aristocrático, desde que apenas executor da vontade geral.

Em todo caso, Aristocracia denomina o poder dos melhores. E melhores sempre delimitou uma amostragem populacional, uma minoria. Podemos arriscar a pensar que se trata do poder de uma minoria, quando há aristocracia, vice versa.

Desde a redemocratização, vimos o crescimento de uma tal “democracia representativa”, constituída em 1988. A divisão de poderes entre legislativo, executivo e judiciário tem Montesquieu como padrinho e outros Estados como exemplos. O drama de um estado extenso que se diz democrático reside na representação da vontade do povo no poder legislativo.

Consta no Capítulo IV, Art. 14 da nossa carta magna, que a soberania popular se exercerá via sufrágio universal mediante plebiscito, referendo e iniciativa popular. No entanto, a lentura, a burocracia e a, ainda, precária mobilização coletiva, fazem da tal soberania popular mera formalidade, “um papelzinho”.

Somos governados por grupos, os “melhores” para se ter mais exatidão. Grandes corporações jornalísticas como Abril, Folha, Estadão, Globo, Bandeirantes e outros filtram informação e formam opinião. Reproduzem entretenimento comprado, quase sempre acrítico e pseudo politizado quando critica.

Somos governados por partidões. Sim, boa parte deles são partidões, ou você acha que o Código Florestal ou o piso de policiais e professores são analisados pelo teor social do tema? Conchavo. Fisiologismo passou de vício a costume. Corporativismo é mal necessário. E assim vamos, permitimos desmatamento porque parte dos “melhores” assim quer, na busca por cargos.

Somos governados por caciques. Do Maranhão 66 à serrista Pauliceia. E os caciques lideram bancadas, partidos, Estados. São os “melhores”.

Somos governados pelo lobby, pelas grandes montadoras para que tenhamos mais carros e menos bicicletas; somos governados pelas imobiliárias, pela especulação e pelo aluguel salgado, extorsivo no custo/benefício, além do higienismo , a gentrificação para a valorização de regiões. É o sistema.

E a birra da base aliada do governo federal vai por esse caminho. Grupos querem poder, querem altos cargos da gestão, pelo simples poder. Descambamos já, talvez, para a oligarquia, ou “governo de poucos”, não necessariamente melhores.

Assim, são os grupos que governam. O povo deixa espaço para os melhores, ou os poucos. Tá aí, no seu dia-a-dia. No trânsito que você pega, no imóvel em que você dorme, no entretenimento em que você se distrai, no trabalho que você atura e na vida que você vive.

sexta-feira, 9 de março de 2012

O tomar posição partidária


"O melhor caminho para uma desculpabilização universal, é chegar à conclusão de que, porque toda a gente tem culpas, ninguém é culpado"
José Saramago

Hoje menos política que religiosa, essa filiação, material ou abstrata, engajada ou por conveniência a um partido político, pode engendrar uma série de obstáculos ao pleno exercício da democracia. Para além dos entraves institucionais das instâncias governamentais, o problema começa pelo eleitorado.

Todo ato é político. Por estarmos inapelavelmente inseridos num coletivo, nossas ações têm irreversivelmente impacto sobre os demais nesse coletivo inseridos, sejam eles próximos ou distantes, conhecidos ou ignorados.

Quando se pensa no poder do voto para essa coletividade, esse ato específico extrapola seus efeitos cotidianos. Desnecessário dizer que é um dos mais significativos atos políticos, porque é universalmente institucional.

Universalmente institucional, pois todos veem o voto como o momento democrático por excelência. Ações coletivas como protestos, boicotes e mesmo chuva de ovos, se não acompanhadas de ações legais efetivas, funcionam somente como mobilização. Não que sejam vãs, mas carecem de direcionamento por vias institucionais, ainda.

No entanto, para a grande maioria do eleitorado, sobretudo de classes intermediárias, o posicionamento político e o voto só se dão as mãos em anos pares, em meses próximos ao pleito. O que foi feito em outros momentos das gestões eleitas, não parece ser do interesse, muito menos da responsabilidade, dos eleitores dos vencedores. E isso, está pra lá de sabido.

Essa desresponsabilização individual é reflexo da inópia, da ausência de consciência coletiva inerente à nossa estrutura sócio-econômica. Sem querer evocar a pieguice, mas pela preponderância de nossos desejos egocêntricos, ornados pela correnteza do cotidiano, alimentamos a fila em hospitais, o analfabetismo, o trânsito e a corrupção. Eventualmente, nos tornamos fruto do sistema. Unidades meramente passivas.

Tomar posição partidária é um ato forçoso, na medida em que ainda é pelas vias institucionais que certas realidades se transformam no Brasil. Mas escolher um partido deve obedecer a preceitos mais nobres do que o ódio por outra agremiação partidária ou pelas ideias pré-concebidas e hereditárias, sejam herdadas da mídia ou do tradicional papai e mamãe.

Mesmo com o espaço ganho por organizações civis e, sobretudo, por grandes empresas nos locais de tomada de decisão, o prélio partidário ainda reina. De maneira trágica, a democracia que se conhece aqui carece da intermediação de partidos que mais votam conforme os desígnios de alianças do que propriamente atentando aos direitos e necessidades da população.

No entanto, a aliviante culpabilização genérica do “todo político é corrupto”, desresponsabiliza-nos de nossa ação individual. Em meio ao conformado e desenfreado acusacionismo, nos tornamos mero “mais um”, sem responsabilidades.

Assumindo certa moral, moral política para indivíduos coletivos e, consequentemente políticos, a assunção partidária deve obedecer aos doces e aos acres. Se escolhemos uma legenda pela ideologia, ou mesmo pela rinha partidária, somos compelidos a nos responsabilizar pelos males do partido ao qual dedicamos nosso voto. Afinal, o colocamos lá.

A democracia representativa tem suas faces, férteis ou inférteis. Precisamos assumi-las todas enquanto assim for, até que a democracia seja vivida como democracia.

Em meio à desculpabilização universal e a poeira encobridora do cotidiano, as filas em hospitais hão de continuar, assim como o trânsito, a violência e todo o leque de bem conhecidas mazelas sociais.

Só colheremos na vida os frutos de um coletivo saudável quando nos responsabilizarmos pelas políticas que na urna alimentamos.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Substantivo Democracia


Não há, no léxico, palavra mais violentada que “democracia”. A origem é grega, o uso é universal e a situação é russa. Morfologicamente, um substantivo. Tomando como bom exemplo o exame gramatical já empreendido sobre o PMDB, acho prudente debruçarmo-nos sobre a acepção de tão fundamental vocábulo.

Foto: João Faissal
Malfadado polissílabo! Sujeito de tantos lúgubres predicados! Os que contam a história fizeram questão de empunhar o escudo como espada; e a democracia foi adornada com os menos democráticos adjetivos. Prostituída. Saqueada. Distorcida.

Como há de lembrar, da etimologia sabemos que “democracia” poderia ser, em si, substantivo e adjetivo. Dos gregos demo (povo) e kratos (poder) poderíamos supor que sempre que a palavra aparece, há o poder popular. Mas as palavras mudam de opinião, por assim dizer.

Elucidando, o DEMocratas, partido brasileiro, não pode ter esse nome, uma vez que tem origem em barões, latifundiários e grandes empresários. E não pode não por proibição ou moral, mas por pura inconsistência etimológica.

Partamos à análise morfológica.

“Liberal”, como adjetivo, compreende uma extensa seara semântica, de acordo com o uso. Aprendemos, nos afáveis anos de escola, que o adjetivo muda a qualidade do substantivo.

Veja você a enorme discrepância entre “saia curta” e “saia longa”, “copo cheio” e “copo vazio” etc. Quão poderoso é o adjetivo, capaz de colocar o substantivo onde ele bem entender!

Morfologicamente a relação é de quase dominação. O substantivo “céu” não pode ser “azul” se o “cinza” se assenta, e por aí vamos.

Quanto ao substantivo “democracia”, nosso enfermo e corrompido oxítono, a regra é a mesma. Sem delongas, adjetivos como “liberal” (no sentido usurário comumente aplicado), “cristã” e “representativa”, modificam o sentido de “democracia”, imputando-lhe uma qualidade ao bel prazer de quem escreve.

Portanto, “democracia” é uma coisa. Se acompanhada de adjetivos, muda sua qualidade. E já basta de tanta mutação para uma palavra que, na prática, ainda é utópica.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A incompreensível política partidária das eleições em SP

Não faz sentido gastar neurônios para tentar entender o emaranhado político atual em torno das eleições na cidade de São Paulo. O que não faltam até o momento são jogadas surrealistas para a corrida municipal. 

Os três principais partidos na disputa apresentam hoje candidatos inimagináveis há um ou dois anos, o que gera ou segue gerando crises internas e confusões na mente do eleitorado, o último a saber das decisões partidárias. 

A exemplo da indicação de Dilma, o ex-presidente Lula deixou de lado as vozes do Partido dos Trabalhadores para empurrar um ministro para a chancela do voto. Depois de demover petistas históricos de concorrer, como Marta Suplicy e Mercadante, o PT preferiu concentrar esforços em promover Fernando Haddad como o candidato ideal para a metrópole. 

A cúpula do PMDB foi além no exercício de ignorar os membros tradicionais da legenda. Em busca do executivo paulistano, o partido de Michel Temer vai mostrar a foto de Gabriel Chalita aos eleitores que apertarem 15 na urna eleitoral. Trata-se do mesmo escritor recém-ingresso na política que há um ano e meio levantava a bandeira do PSB.

Mas o passo mais arriscado nos jogos partidários ainda não é uma certeza. O PSDB pode ignorar Bruno Covas, Andrea Matarazzo e José Anibal numa tacada só ao lançar – mais uma vez – José Serra na corrida pela prefeitura. Visando uma porção maior do eleitorado, os tucanos correm o risco de dar pano para manga para uma porção ainda maior de eleitores – a dos anti-Serra, que irão certamente jogar no tabuleiro uma carta conhecida: a antiga ambição do ex-governador em tornar-se presidente, a despeito da administração municipal. 

Quem está de fora dos intensos registros de fogo-amigo nos recantos políticos de São Paulo é justamente o mais importante elemento das eleições. Kassab assume abertamente apoio ao PSDB no caso da candidatura de José Serra, tornando-a impossível em contrário, como se todo o apoio vindo do PSD e de seus eleitores só tivessem uma explicação personalista, sem qualquer mérito ideológico, uma vez que a desistência do ex-presidenciável tornaria certa a aliança do atual prefeito com o PT. 

A coligação PMDB-PT também é outro discurso ambíguo. Chalita e Haddad evitam o confronto direto, a ponto de admitir uma já costurada aliança no segundo turno, como se a derrota de um deles fosse certa.  

Enquanto isso, nada se fala das questões de interesse do paulistano. O debate que se desenhou na operação da PM na Cracolância perdeu força. Até o momento, as eleições ainda são uma questão partidária. Nada de discussão política. 

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

O excessivo essencialismo da vida



“Pós-modernidade”, mundo sem sentidos e desamparo são ideias efusivamente trabalhadas por pensadores dos nossos dias. Muitas vezes essas concepções escondem ignóbeis e/ou artificiosos propósitos. A constatação do desamparo, do abandono e da ausência de sentido nesse mundo atroz é o primeiro passo para o acorrentamento a uma doutrina, seja ela qual for.

“Ser culto es el unico modo de ser libre”, disse certa vez José Martí, heroi da primeira independência cubana. Não a toa a segunda independência de Cuba seguiu esperançosamente o pensamento de Martí, e a educação na Ilha ainda é invejável.

Mas voltando à fatídica e belicosa sociedade monetária dos dias presentes, onde poucos têm acesso ao caminho dos cultos, o discurso do desamparo arrebata os desiludidos das mais diversas formas, essencializando a vida, dando-lhe um sentido clandestino.

A começar pelo eterno e temporal poder religioso. O discurso acalorado, entusiasmado e reconfortante é, grosso modo, o mesmo em diversos credos. Os desenganados são tocados, mesmo pelo discurso do evangelismo empresarial e sua chaga social, e vertem lágrimas e lealdade incondicional a uma ou outra fé.

Deste modo, as almas humanas originariamente livres se atam e se essencializam num padrão existencial exigido pelos mandamentos da fé. Mas esse fenômeno conhecemos bem, ultrapassou séculos e ainda ancora em qualquer tempo.

A exemplo do trilhado caminho da fé, encontram-se os manuais de vida. Literatura fácil que abraça os desamparados e enriquece os, supostamente, conhecedores do viver feliz.

Profusão de exemplos, como os romances de paralelismo, parábolas que, hipoteticamente, transcendem contextos sociais e históricos e valem universalmente pois concordam com a tal natureza humana. Ou mesmo a aclamada literatura corporativa, na qual os administradores encontram o sentido da vida num manual de negociação. Sem contar as infindáveis reinterpretações de clássicos como “A arte da guerra” e “O Príncipe”, ativamente descontextualizados para servir aos conhecedores de cases de sucesso, sucesso para quem?

Antes aceitássemos nossa indefinição, não seriamos reféns de sentidos criados com sabe-se lá que propósitos. Melhor seria se reconhecêssemos a inabalável ausência de sentido do existir, pois que daí iniciaríamos a busca por um sentido propriamente nosso.

Já dizia o filósofo francês Jean-Paul Sartre que “(...) somos condenados à liberdade”. Na investigação ontológica do alemão Martin Heidegger nos deparamos com a ideia do vazio do nada, da angústia existencial. É a angústia que abre portas, por assim dizer. Todavia é insuportável.

Mas existir é insuportável, qual o peso de carregarmos a nós mesmos nesse insólito percurso que é a vida? Dessa feita, nos essencializamos excessivamente em credos, “auto-ajudas” e fontes de sentido pré-fabricadas, no sentido econômico do termo.

O difícil enfrentamento da própria existência e da responsabilização pelos próprios atos alimenta, por exemplo, para retornar ao senso do blog, a desatinada tomada de partido e posicionamento político, como tentarei abordar em texto vindouro.

Os sentidos construídos por terceiros permanecem àqueles que fogem de si mesmos. E aos que encaram o desamparo inerente à existência humana, é tão indigesto aceitar esses sentidos quanto é difícil combatê-los.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

“E agora, José?”


A cara da atual situação política de José.
“A festa acabou (...)”.

Com os recentes escândalos desvelados pelo “Privataria Tucana”, parece que José pode parar de perseguir o poder a qualquer custo. Após a derrota em 2010, fez o que pôde para não sumir das luzes. A partir do bombástico livro de Amauri Ribeiro Jr., evita multidões e insolentes indagações, “e agora, José?”

No centenário do Theatro Municipal de São Paulo, lá estivera ele. Na final da Libertadores da América de 2011, mesmo palmeirense, empoleirara-se no camarote do Pacaembu. Houve um esforço hercúleo por parte de José, o tucano de pirata, para mostrar que, de algum modo, ainda está aí. “Se você gritasse”, José.

Quais as aspirações políticas de José? A prefeitura de São Paulo seria possível, uma vez que tem adesão daquele fidalgo eleitorado paulistano que vota como quem escolhe o anfitrião dos bailes da corte, o príncipe dos incluídos, o causídico dos afamados mimados de papai. Mas só “se você gemesse”, José!

Outra vez o Palácio dos Bandeirantes? A aristocracia, o classemedismo e os sabe-se- lá quais princípios políticos coletivos que movem boa parte do eleitorado paulista dariam a José mais uma vez o alto posto da província dinástica tucanesca. Mas até lá haja disposição pras câmeras, pois estar presente a todos os eventos até 2014 cansaria, “se você cansasse”, José.

No entanto, desde a explosiva publicação da saga dos “privatas do Caribe”, José se tornou mais reservado. Evita eventos, jornalistas e manifestantes, “está sem discurso”.

Assumidamente fora da disputa eleitoral pela Pauliceia, talvez porque “a população considera que ele não quer ser prefeito”, José não quer ter que prometer de novo não abandonar o cargo para disputar uma eleição, como fez duas vezes. “Sua doce palavra”, José.

José anseia nova migração rumo ao planalto central. Mas já não é mais o favorito do partido. A “única liderança” do país ao lado de Lula já disse que José não é o candidato natural para 2014. José “está sem carinho”.

FHC ainda diz que sua cota de José esgotou. Pudera, José resiste ou pelo nome ou pelo poder fisiológico nos limites da legenda. Suas passagens pela prefeitura e pelo estado foram de ruim a regulares, e, como se não bastasse, José foi o segundo padrinho do maior desastre político nacional desde Pitta-Maluf: Gilberto Kassab. “E agora, José?”.

O poder pelo poder é o maior dos vícios da política nacional. O imperialismo eleitoral com a busca dos altos cargos eletivos, unicamente pelos cargos, pelo prazer da conquista territorial sobre o adversário, corrobora com o loteamento de cargos de nomeação e outras distorções do sistema democrático. A semicerrada sociedade política e suas pelejas partidárias excitam José. Mas e agora?

Mesmo com todos os seus manchados pelas denúncias documentadas no “Privataria”, a ausência de apoio de seus antigos sócios, com o rastro sujo de política higienista de seus apadrinhados, seus governos pouco democráticos e sociais e suas fraudes eleitorais, “você marcha, José! / José, para onde?”