sábado, 2 de agosto de 2008

Você é um Monet?

A pergunta pode parecer estranha, ainda mais porque evoca o célebre pintor francês Claude Monet (1840-1926), autor do famoso quadro Impression, soleil levant, que serviu como matiz para o batismo da vanguarda Impressionista. Mas ressalvo desde já que não se faz necessário qualquer dote ligado às artes plásticas nem requer conhecimentos profundos de História da Arte para responder a questão proposta. Ser Monet, ao pé da letra, significa ser algo de longe (para bom) e outra coisa completamente diferente de perto (geralmente, para ruim). Ou seja, Monet criava paisagens deslumbrantes com complexos jogos de luz e várias nuances de cores, mas olhando com proximidade a tela do famoso pintor, nota-se apenas “borrões” de tintas. Somos assim: de longe uma bela paisagem e de perto insignificantes borrões. A metáfora soa meio piegas, mas é assim mesmo.
Antes que alguém me processe por plágio adianto que essa metáfora não é minha. Eu a vi em um filme inesquecível (no mal sentido da palavra inesquecível, pois o repetem tantas vezes na sessão da tarde que ele já rivaliza em números de exibição com A Lagoa Azul): As Patricinhas de Beverley Hills (Clueless, 1995, direção de Amy Heckerling). Uma patricinha desse filme diz que determinada garota é bonita. Outra, com asco, rejeita: “Que horror! Ela é um Monet! De longe pode parecer bonita, mas de perto não”. Então aproveito a metáfora para falar do mundo da política e da fama, já que ambos buscam a mesma coisa: o poder.
Veja o caso até de Lula e sua geração. José Dirceu, ex-ministro Chefe da Casa Civil e José Genuíno, ex-presidente Nacional do PT, eram comunistas ferrenhos e pegaram em armas contra a Ditadura Militar, hoje são acusados de atos políticos ilícitos. O presidente Lula, líder sindical nos anos 70/80 e que pretendia mudar o contexto social do Brasil, hoje segue modelos governamentais que criticava.
E o bonitão e esportista Collor, esse obscuro objeto político, criou toda aquela áurea de bom menino, bonitão, o “caçador de marajás” e, no entanto, deu no que deu: colloriu todos os narizes brasileiros de vermelho, como palhaços, com o perdão do trocadilho já desgastado.
Vários políticos são borrões: vemos suas boas intenções, sua plataforma eleitoral que promete fazer mundos e fundos para a melhoria do povo, de um caráter e retidão tão convincentes que parecem messiânicos, mas que na verdade são borrões na história política brasileira. Há os casos clássicos de pessoas que nunca foram Monets, como é o caso de Paulo Salim Maluf e seu compadre de política ACM. Sempre borrões, desde crianças. Esses são os típicos casos de que se cogita que formaram uma aliança com o demônio.
E há os casos das celebridades. Veja Frank Sinatra, com toda sua fama de garanhão e macho domador, era corneado passivamente pela bela Ava Gardner. Madonna, um vulcão que buscava a imagem de “mulher moderna”,era espancada pelo marido Sean Penn e aceitava a situação como uma “mulher de Atenas”. Tristes paisagens!
Ronaldo Fenômeno também parecia ser uma bela paisagem do malandro brasileiro (no sentido carioca de boêmia, não no sentido de larápio), grande amante da alma feminina (mas especificamente do corpo), com toda aquela seleção de loiras namoradas modelos, mas revelou ser um borrão com a história dos travestis.
E assim segue vários exemplos na história, na política, nas artes e com todos os mortais da terra.
Mostre-me uma mulher recatada e casta e eu lhe mostrarei que há nela uma meretriz perversa. Mostre-me um cara legal e eu lhe mostrarei um chato. Mostre-me um homem honesto e eu lhe mostrarei um filho da puta. (Principalmente nesse país onde ser sincero é o mesmo que ter asas).
Até em relação às crianças pode se aplicar essa idéia. Reza a lenda que crianças são puras, o que vem a ser uma grande bobagem de acordo com nova maneira freudiana de encarar o mundo. Sim, elas podem ser puras, mas são de uma pureza edipiana.
São muitas paisagens que na verdade são borrões. Quem quer viver só de imagens, tem um teto de vidro. É, todos somos Monets.

2 comentários:

Renato Diniz disse...

texto bom demais cara!!

bom, eu acho que tem muitas pessoas que de longe podem parecer borrões e de perto são verdadeiras obras de arte. Cada caso é um caso, mas de qualquer jeito, parabéns!

Olavo disse...

Sensibilidade apuradíssima!

E vejam que curioso: de um borrão como As Patricinhas de Beverly Hills surge a verdadeira obra de arte, a idéia de um texto como esse!

Parabéns!