sexta-feira, 22 de abril de 2011

abuso do repórter

Maurício Stycer se rebelou contra a categoria. A revolta se deu ao observar os fotógrafos e repórteres que cobriram a tragédia do Realengo e a volta às aulas do colégio onde se deu a série de homicídios que flodou redes sociais e noticiários.

Os profissionais que vão garimpar a notícia são passíveis de muitas críticas, mas tentar humanizar a profissão através deles é tão infantil quanto exigir o desarmamento para evitar homicídios em massa: até são causas nobres e válidas, mas o problema é uma cárie bem mais profunda no nosso sorriso amarelo.

É fácil chamar os repórteres e fotógrafos de abutres. Mas, se não chegarem com uma manchete e boas imagens dalí, os editores os enforcam. Os editores são os abutres.

Fácil chamar os editores de abutres. Se os concorrentes os furarem, os donos das empresas de comunicação os enforcam. Eles são os Abutres.

Se o publisher da emissora X não quiser cobrir o caso, o publisher Y vai cobrir e ficar com os anunciantes. Eles são os Abutres.

Os anunciantes ficam com a emissora que cobre de forma mais abusiva este tipo de caso, por que há uma demanda popular. A emissora que atender melhor essa demanda terá mais espectadores, o que satisfaz os anunciantes, que farão comerciais sobre desenvolvimento sustentável e paz no mundo.

E aí? Vamos chamar os espectadores de abutres? São a ponta frágil dessa conta, mas não são inocentes. Há demandas populares que são questionáveis, mas quem pode dizer-se acima do povo para não atendê-las ou mesmo censurar quem as atenda?

O jornalismo deve atender essas demandas sem transformar estes casos em malhação de judas, intensificando o coro da massa, legítimo por querer justiça quanto ao descaso com que o Estado lhe atende, mas que considero equivocado na forma como busca essa justiça.

Estimular a crítica à massa é tarefa árdua, e os manuais de redação, em busca da suposta objetividade jornalística, praticamente suprime essa possibilidade. Tudo que resta é a alimentação do desejo de consumir tragédias e carnificina pelas mais diversas mídias.

E o debate, ainda que atenda esse desejo, não o faz de forma automática, fast-fúdica. O problema vai ser superar quem venda a informação sem esse debate. Mas aí, o espectador é quem deverá escolher entre alimentar seu ódio irracional às atrocidades igualmente irracionais que nos acometem, ou estimular a crítica às autoridades competentes cuja função é justamente trabalhar para que isso não aconteça.

Se escolherem a primeira opção, não reclamem da falta de humanidade dos repórteres e fotógrafos: seguramente, eles não gostariam de estar ali.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Por quê Sim ao Tiririca na Câmara


O Haja vai dar uma de O biscoito Fino e a Massa. Não por atingir a qualidade das postagens do mestre Idelber Avelar, mas por abrir espaço para vozes ilustres de fora do blog. O Psicólogo Yuri Ongaro, grande amigo meu, traz alguns caracteres muito interessantes sobre crítica de mídia e sociedade, e a xenófoba mania destas de perseguir quem não se enquadra no padrão estético da Avenida Paulista.

Recomendação de Thiago Teixeira
A esmagadora maioria dos meus amigos recebeu com surpresa minha manifestação de agrado à eleição do palhaço Tiririca para a Câmara Federal nas eleições de 2010. Aposto que a mesma surpresa atinja quem se conforma com o título deste texto sem se dar ao exausto trabalho da leitura, tão desprestigiada em nossos tempos. Inicialmente, para já facilitar os próximos passos, não votei no cidadão Francisco Everardo, muito menos no famigerado Tiririca, no entanto vejo com bons olhos sua presença na casa, assim como seus “escândalos” já destacados pela grande
mídia. Afirmo, com toda a convicção, que se trata daquilo que muitos chamam de “um mal necessário”.

Levanto já indagações: os mais de 1 milhão de eleitores votaram em alguém que conhecem, não era essa uma das críticas que a mídia sempre colocou em pauta para justificar, sob que obscuros pretextos, que o brasileiro vota mal? E o que há por trás do recorde do Tiririca, um protesto consciente ou um vivo sinal de que a política anda tão distante das necessidades do povo, que esse já lava suas mãos? E tal tipo de descompostura do eleitorado é patrocinado pela mídia, afinal soubemos muito mais do Tiririca do que de qualquer outro parlamentar eleito. Será que porque ele é um palhaço e os demais são engenheiros, advogados, militares? A atenção concentrada na atividade legislativa do deputado Francisco Everardo é sem precedentes na história da cobertura política nacional: “Tiririca votou errado”, “Palhaço Tiririca gasta dinheiro público em resort”, “Tiririca contrata humoristas como secretários parlamentares” e por aí vai, afinal a palavra “Tiririca” rende assuntos e acessos. As notícias arrebatam um sem número de cliques porque tratam de um palhaço, e a classe média pseudo-politizada encontra o espaço pra desfraldar seu extenso e vazio discurso de “absurdo!”, “infâmia!”, “puta sacanagem!” et similia.

Ora, a que se prestam essas notícias dos portais de internet a apontar seus suspeitos dedos ao cidadão Francisco Everardo? A uma elucidação política do povo sobre o que se passa nos legislativos pela república? Ou se presta à troça do deputado Tiririca, afinal ele é um palhaço? E aqui há outro ponto interessante: Tiririca tem sido tratado somente como um palhaço por pessoas que se manifestam contrárias ao preconceito, seja esse qual for, não é curioso? Mas, um palhaço? Não seria melhor mais um político de carreira, como um Maluf menos badalado, que gastará nos mesmos resorts, contratará os mesmos funcionários suspeitos, mas que não tenha os holofotes do picadeiro midiático que tem Francisco Everardo? A casa possui 513 deputados, não seria justo e politicamente prudente saber o que fazem ou não fazem os demais 512 parlamentares com seus PLs, seus discursos e com o dinheiro público? Talvez não, afinal qual é a graça dos empresários, dos professores, dos engenheiros ou dos economistas eleitos? Nenhum deles é palhaço. Em um país em que tanto se discute e se combate o preconceito, muitos desses são velados ou autorizados pela maioria. É saudável refletir sobre o menosprezo ao outro que muitos de nós carregamos em nossas sombras.

Ainda nas águas doentias do preconceito, recentemente se tornou público o grave caso do deputado Jair Bolsonaro. O que muitos não sabem, é que o militar acumula legislaturas desde 1991. Em outros termos: esse cidadão, que deixou manifestas suas intolerâncias política, sexual e racial em rede nacional, nos governa há 20 anos. Contudo, foi preciso que um programa de alta audiência facilitasse o escape de todo esse ranço discriminatório para que soubéssemos que tal militar, filho da “página infeliz da nossa história”, elabora leis e ganha pesado soldo por isso. O que soubemos do parlamentar Bolsonaro nas últimas duas décadas? Incomodou-nos? Não,
afinal era privado o que é de interesse público e ele não é um palhaço, não como Tiririca. E os demais 511 deputados, conhecemos? Soubemos de dois, já é um avanço.

Havemos de acompanhar a legislatura de Francisco Everardo pelas manchetes enviesadas da grande mídia, em clara demonstração de que os principais veículos de comunicação são conformados ou tendenciosos. Conformados porque raras vezes a atividade parlamentar é alvo de análises de grandes jornais, e muitos devem ter seus rabos presos com um ou outro empresário, advogado, os supracitados profissionais eleitos, enfim. Tendenciosos porque muitos levantam suas empoeiradas bandeiras ideológicas em nome da guerra política, de maneira sutil como cabe ao jornalismo “imparcial”, mantendo os cidadãos em segundo plano. “Tiririca ainda não apresentou nenhum projeto de lei”, “O palhaço Tiririca ainda não discursou no plenário.”, quem apresentou, quem discursou? Quantos noticiaram que Tiririca gastou apenas R$ 42,03 de sua cota parlamentar no mês de março? Quantos tornaram público que, já em fevereiro, o deputado Francisco Everardo iniciou a recriação da Frente Parlamentar em Defesa da Cultura Popular e criou um projeto de integração cultural com outro deputado tocantinense? São notícias que não alimentam o deboche pelo “deputado-palhaço”, não rendem público ao circo que se tornou a imprensa.

Por fim, quero justificar o porquê do “mal necessário” referido no primeiro parágrafo. Através dos motejos pouco informativos de grandes jornais acerca das “palhaçadas” do deputado Tiririca é que podemos ter um panorama do funcionamento da câmara dos deputados, que pode tranquilamente ser base de compreensão dos demais legislativos pelo país. As cifras gastas com resorts, as viagens de avião, as reformas de escritório e demais abusos financeiros são correntes nos parlamentos Brasil afora. Através dos holofotes no palhaço, vamos saber que muitos
deputados não propõem projetos de lei e outros se preocupam meramente com jogos político partidários em detrimento do interesse público, além daqueles que votam conforme a maioria, sem nem tomar conhecimento dos assuntos em pauta no congresso. E mesmo a falha no sistema eleitoral, tornada pública pela eleição de deputados de carona nos mais de um milhão de votos de Francisco Everardo, falha combatida pela “Lei Tiririca” na vindoura reforma política, é mais um sintoma (ou sinal?) de que há algo de podre na república do Brasil.

E a gente? Ah, a gente se preocupa..."ma non troppo", fala mal, xinga, menospreza, debocha do palhaço, enfrenta inflação, pega trânsito, paga imposto, assiste novela, continua no trânsito, é assaltado, faz compras e... e "la nave va", como diria aquele que enxergava dignidade na figura do palhaço.

Yuri Ongaro (4/4/11)

terça-feira, 5 de abril de 2011

Desânimo na faculdade... culpa dos cursinhos

Alunos de faculdades públicas decepcionados com o ensino que estão recebendo. Quem são os grandes culpados? É tentador responder que é o governo, mas minha primeira resposta seria: a culpa é do mercado.


Por que? Os cursinho pré-vestibular. Vou partir do meu exemplo: as aulas eram divertidas, interessantes sim, mas os professores sempre tocam no mesmo ponto: "O importante é passar numa faculdade pública". O motivo? "É bom para o currículo" diziam os mestres. Nas particulares reina o "pagou passou".

Dado esse discurso, as instituições USP, Unesp e Unicamp se tornavam aos poucos em grandes pesadelos - e metas - de todo estudante. Se a pergunta não cai nesses vestibulares (incluindo também as federais e estaduais do restante do Brasil) não tem importância. Mas se cai, tem que saber responder. Tem que passar.

Depois disso, os cursinho só precisam somar o número de aprovados e colocar no jornal: Cursinho X, 00 aprovados na faculdade y, no curso Z.

Quando o estudante alcança o seu objetivo (ou o objetivo do cursinho?) chega na faculdade e se depara com um ensino extramente crítico ao mercado - vou me limitar a falar dos cursos de humanas e comunicação. Até aí, nenhum problema. Aliás, melhor ainda. Mas em muitos casos a filosofia de ensino de alguns cursos de faculdade públicas praticamente ignora o mercado. Centra-se na pesquisa, nos projeto sociais, nas ONGs, no trabalho acadêmico. Pouco ou quase nada fala-se do mercado. Ou critica-se o dito cujo.

O estudante que chegou empolgado para entrar no mercado se depara com aulas que não falam do mercado. Em alguns casos, quando vai buscar emprego, percebe que o peso dado a instituições públicas não é maior que o dedicado às particulares.

Aí reside a culpa dos cursinhos. Ao invés de salientar as peculariedades do modus operandi do Estado (por meio das universidades estaduais e federais) e da iniciativa privada, centra-se em inflar a idéia de que o importante é passar numa USP ou Unesp e que as faculdades particulares são indústrias do ensino [olha só quem está falando].

Claro, Fuvest e Vunesp também tem culpa no cartório. Querem abraçar o mundo nas suas provas, mas abrem pouco espaço para esse tipo de reflexão.

Resultado? O estudante que passou no vestibular, se decepciona. Os professores universitários se decepcionam com alunos "alienados" que só pensam no mercado. Os empregadores se decepcionam com os recém-formados que pouco tiveram aulas práticas. Talvez porque ouvissem falar tão bem de universidades públicas e tivessem traduzido isso para "vão trabalhar melhor para mim".

A indústria do vestibular, alimentada pelo pensamento do mercado acaba vitimando [olha só!] o próprio mercado.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Caetano, Lobão, e clichês

Caetano e Lobão brigaram (Clichê).
O motivo agora é o blog da irmã do tropicalista: Maria Bethânia, uma cantora de sucesso, solicitou o direito de arrecadar uma grana através da Lei Rouanet (Clichê).

O povo do Twitter criticou (Redundância). A crítica envolve desde quadrúprdes que acham que a verba de Cultura deveria ser investida em hospitais, a velhos críticos da forma com que a lei vem sendo aplicada, servindo de moletas para quem em tese poderia se virar...
Nesse miolo todo há gente muito sensata, gente menos sensata mas competente, gente tão pitaqueira quanto este blogueiro, gente estúpida e o Lobão.

O Lobão é um surfista de polêmicas profissional. Saindo do tubo do Restart, avistou uma onda muito maior quando o Minc divulgou que BethÂnia poderia arrecadar sua bolada de 1,3 milhõezinhos. Talvez ele não esperasse que o mar estivesse tão bom: Caê resolveu defender
sua irmã e os dois ganharam mais uma flor pra brincar de mal-me-quer-bem-me-quer.

Só que o Caetano, a despeito da sua idade, bate forte. Enfureceu o colunista preconceituoso e que no final de sua tréplica quer que façamos o que, se tão simples, poderia ter feito. O golpe de Caetano foi malicioso. Bateu em meio mundo, mas em especial no ego de Tognoli e do músico. Um diz que escreveu sua auto-biografia, e o ghost writter, concordando, afirma que fez toda a pesquisa documental que o "pós-ditadura teceu contra Lobão". O ego de Tognolli vai ser um grande empecílho para manterem essa versão.

Não que a crítica ao financiamento público de arte com grande potencial de consumo seja de todo incoerênte. É cruel que iniciativas precisem dividir talvez sua única forma possível de financiamento com estrelas da música popular.

Acontece que uma visão utilitarista, sistêmica, é insuficiente para mensurar a Arte. A Maria Bethânia e sua equipe (bem como Nando Reis, Maria Rita entre outros) precisam ter planilhas pra isso, esse é o ganha pão deles. Não justifica o excesso nos pedidos.

Por outro lado, quando pensamos que nossa população não tem a cultura de fomentar expressões artísticas, que achamos justo que alguém confinado por meses ante dezenas de câmeras receba uma recompensa equivalente as questionadas sem maior alarde, que artistas preocupados com sua estética física consigam divulgação midiática muito maior que aqueles preocupados com a estética de suas obra, bem, aí dá pra imaginar quão delicado é ser artísta no nosso convívio, e que talvez esses artistas merecessem ganhar tais somas pelo valor que agregam às nossas culturas e identidades, sem precisar de tirar dos menos propalados as migalhas que o MinC lhes permite disputar.

sábado, 26 de março de 2011

Vale outro post

Em Tempo: Segundo o IG, o Agnelli sai 19 de Abril e o diretor de ferrosos da Vale, José Carlos Martins ou o CEO da subsidiária Inco, Tito Martins, seria o nome que Guido Mantega e o Bradesco teriam escolhido como substituto na tarde de ontem. O primeiro, indicado pelo antigo presidente. O último, indicado pelos acionistas do governo.

Seja como for, Roger Agnelli sairá por ter desagradado acionistas seja por "insubordinação" (como vão dizer os críticos do governo) e por desespero para manter-se no cargo ( segundo o Bradesco).

Quem o está demitindo, seja da Bradespar ou do governo (via BNDES ou Banco do Brasil) o conhece bem, pois trabalharam juntos como membros do comitê Estratégico da Vale.

Pelo visto, a hashtag #ficaAgnelli terá a mesma utilidade que a #fichalimpa. A dica é tentar uma campanha #teamTito ou #teamJoseCarlos, dependendo da sua afinidade. A Vale está como a PUC: É privada, mas tem confusão com clientes, bedelho estatal, hábito de descontar nos funcionários e até pitaco da população... e, por baixo da discussão, a velha conversa.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Vale o debate?

A ordem do dia no comitê Tucano é tuitar qualquer coisa com a hashtag #ficaAgnelli. Do lado Petista, sem muito ibope, o mote #foraAgnelli quer fazer frente aos rivais.
Como é natural na rede do passarinho azul, gente que se afina com um partido ou outro entra no debate, mesmo sem entender muito de economia. Como é ainda mais comum, gente que quer divulgar links se aproveita da popularidade do tópico dificultando cada vez mais saber do que se trata.

Apesar do jeitão da Tag, o famigerado não é um bigbrother no paredão. Roger Agneli é o presidente da Empresa/cabo-eleitoral Vale do Rio Doce. Deu no Estadão que o Palocci teria pedido ao "Bradescoprev" pra ele sair. O Palocci nega, mas não seria um boato absurdo, uma vez que a intervenção já era prevista antes mesmo da eleição de Dilma. Brigar com o Palocci não é bom. Uma galera ficou meio revoltada com a possível intervenção e começou a reclamar.

A Vale é sede de uma série de debates que caem na disputa "Ação do Estado X Autonomia do Mercado". Apesar da segurança com que o pessoal resume sua opinião à 140 caracteres, o assunto é tão complexo que o Nobel de economia vai uma ano pro #teamState e outro pro #teamMarket.

A treta é a seguinte: O Estado te garante o salário mínimo, que sem ele, os empresários não te pagaríam nem essa merreca (ou você acha que pagariam?). Mas quanto mais alto ele for, mais caro será o custo de vida, já que as empresas repassam o preju pros preçõs de seus produtos. Esse resumo é como tentar colocar um cd inteiro do Pink Floyd num refrão do Ramones.

E sai no Brasil Econômico que, na real, querem a saída do Agnelli por causa da compra da produtora de cobre Paranapanema. Eu, modestamente, duvido que uma divergência sobre uma empresa tão pequena gerasse tanta polêmica.

No final das contas, a briga é pelo controle da empresa. O Estado está se portando como um acionista insatisfeito, bem ao gosto do mercado. Curiosamente, os liberais estão querendo impedí-lo.

sábado, 12 de março de 2011

#falalobao Que eu te esculacho

post atrasado e oportunista sobre a polêmica entre crianças bobas e um velho babão:

alguns fatos estruturais:
- educação falida nos estados do sudeste, que veem o restante do país como floresta amazônica;
- mídia viciada em estereotipos preconceituosos:
Se em jornais, brasileiros de fora do sudeste são interioranos pitorescos ou vítimas de violência;
Se em novelas, os brasileiros em questão são sempre ligados a profissões pouco valorizadas, e, se nos principáis papéis, se apaixonam por alguém rico e do sudeste;
Em ambos os casos, o sotaque é caricatural e absurdo;
- tradicional preconceito regional do sudeste, que acredita ser " a engreagem principal do país" e que o resto da população sobrevive às suas custas;
- visão elitista predominante de que políticas assistencialistas sustentam vagabundos, disperdiçando dinheiro público (quando na verdade geram lucro e desenvolvimento);
- mídia (grande e mesmo independente) que se propõe nacional mas que geralmente subjulga regiões norte, nordeste e mesmo centro-oeste;
- preconceito histórico contra pobres e a associação indireta a imigrantes internos por conta dos sub-empregos que lhes foram ofertados e as condilções de moradia às quais foram submetidos;

fato circunstancial:
- Thomas, da banda de RockConfetti Restart, afirma não saber se há civilização em Manaus;

Quais desses seria alvo mais coerente para uma crítica que vise respeitar a identidade nacional e apontar para a resolução de um dilema delicado que é o preconceito regional interno no Brasil?

Se você é uma estrela geriátrica do rock cafona e que está desesperadamente precisando de Ibope de adolescentes coloridos pra garantir seu emprego na cada vez mais mamônica MTV, a resposta é fácil. Vamo bater no Restart.

Se você é um blogueiro no final do curso de jornalismo, é melhor ignorar todos os temas estruturais, e ainda o circunstâncial, e bater na estrela caduca do Rock, cujo som nunca te agradou, tão pouco suas opiniões em busca de polêmica gratuita. De repente você consegue uns acessos da molecada...

sábado, 5 de março de 2011

Libia, esquerda e direta

O maior problema da esquerda são os ditadores que dizem defendê-la e o segundo maior são os militantes que defendem esses tiranos. Como um esquerdista laico, quase um pagão, vou traduzir um depoimento que a Al Jazeera postou em sua brilhante cobertura de um massacre de civis que Muammar El (escolha a grafia) está comandando. A intenção é tentar flexibilizar um pouco as certezas de alguns fanáticos.

Ahmed, morador de Az Zawiyah fala para a Al Jazeera por telefone do meio da batalha. Gritando pra ser ouvido sobre o som do fogo da artilharia e de pequenas armas, ele reporta:

A cidade está sendo bombardeada por tanques, armas pesadas e morteiros. Os rebeldes estão se esforçando pra resistir, de forma basdtante primitiva. As forças invasoras são impiedosas e brutais. Há muitos feridos e muita gente assassinada nas ruas.

Não há piedade com os civis. Os tanques do regime atacam a todos indiscriminadamente e não temos como nos defender.

A situação atual é trágica. É muito séria. Nós esperávamos que o mundo interviesse, mas eles nos desapontaram. As balas vêm de todos os lados

Eles estão atirando nos cidadãos Líbios e nos nos convencemos que vamos morrer aqui. Lamento muito, estamos no meio de uma batalha e a artilharia é mito pesada, a ligação pode cair a qualquer momento

Nós fizemos prisioneiros, tirados de dois tanques, e estamos tratando com respeito. Mas eles estão atrando em nós, estão nos matando.

Onde estão as Nações Unidas, ou a Liga Árabe ou a comunidade internacional que tem falado sobre os nossos direitos e sobre nos proteger? Não sei se eles vão cumprir com a palavra deles.

Estou no meio da Praça dos Mártires e estamos conduzindo a batalha. Os tanques nos cercaram e estão atirando em todos os prédios, residenciais ou comerciais. Os tiros e a destruição é indiscriminada e os civisd estção se abrigando nos prédios ao redor da praça - mas eles ainda não desistiram.

Todas as partes da sociedade - todas elas - profissionais ou fazendeiros, estão juntas, ajudando-se na esperança de conseguir sobreviver.

Mas é muita violência, e é indiscriminada - e quanto ao número de mortos e feridos? eu não pude contar ainda. PRECISAMOS DO MUNDO AQUI, PRECISAMOS QUE INTERVENHAM - PALAVRAS NÃO BASTAM. NÃO É UMA QUESTÃO DE GÁS OU PETRÓLEO QUE PRECISAM PARA O PAÍS DE VOCÊS - SÃO VIDAS HUMANAS E SANGUE SENDO DERRAMADO - NESTE INSTANTE.

Ditadores são um câncer, independente de onde se situam no espctro político. Bóbbio já avisou, quando diferiu esquerda e direita, que os radicais não estão afastados nas pontas do raciocínio ideológico: extremas esquerda e direita são muito mais similares entre sí que seus pares moderados.

Independente do seu tom de cinza entre o preto e o branco, esteja atento pra não manchar-se de sangue inocente.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Bolada garantida

Pela odisseia virtual cotidiana, encontrei o blog de um professor de literatura, a quem devo boa parte da minha nota no último vestibular que prestei. Desnecessário recomendar a leitura do blog de alguém que tanto admiro, mas recomendo em especial este post.

Ele faz 5 perguntas sobre eleições que eu me atrevi a discutir (na verdade 4, que a última exigiria um conhecimento sobre pós-modernidade que eu jamais fingiria possuir). De pensar nas respostas, surgiu meu interesse no fundo partidário.

É aquela grana que os partidos recebem do Estado pra se bancar (mais os trocados das doações). Antes chingar os malditos e dizer que os impostos deveriam ser usados pra outra coisa, um partido político é uma instituição importante para a democracia. Seria importante que o Estado garantisse sua existência.

Seria, porque deveriam garantir a liberdade política de todas as ideologias presentes no país, assegurando assim a liberdade de escolha do cidadão. Utópico bagarai. Vamos falar de realidade agora:

Os partidos não representam ideologias. Como tudo que sobrou para este miserável planeta, eles são empresas. Tal qual existem Nikes e Adiddas numa loja de calçados, seu partido figura o horário político. Cada produto tem sua vitrine adequada.

Seu governante é um produto. Bem como existem tênis pretos e brancos, masculinos, femininos, all-stars, de couro , de plástico, rígidos ou maleáveis, assim são seus candidatos. Em comum, são descartáveis. Com a diferença que um tênis não dura 4 anos nem na gaveta.

Agora posde chingar os malditos: cada partido tem um CEO e um conselho que não vai sair do poder. Pode votar à vontade. Não os culpe, você não largaria o osso também. Eles recebem uma bolada todo ano, e não é pra menos. Senão , em quem você votaria?

O Fundo Partidário é o que fecha a conta das campanhas. Tanto que, para a campanha mais cara da história, o rechonchudo subsídio engordou 65% (parlamentares gostam dessa porcentagem, né?). Resgatando o Chico Anysio, e o humor televisivo, ido há tantos, "e o salário, ó...".

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

BBB ou eleição? Eis a questão

Resolvi provocar nesse meu primeiro post em 2011!

Um pouco antes de começar o Big Brother eu li, via Twitter, um desabafo "Prefiro 3º turno de eleições à BBB11 no Twitter". E quando se fala em Twitter*, se fala na vida real.

Na hora achei engraçado e até retuitei (quem não entendeu pergunta pro filho), mas depois pensei mais sobre a asseveração (quem não entendeu pergunta pro papai).

Eu não assisto Big Brother, mas nessa luta, resolvi defendê-lo**. Ou ao menos lançar argumentos para uma matutação.

Vamos lá. Para quem gosta de política e não gosta de produtos de massa, é inevitável ir direto na primeira opção. Mas pera lá. Pensando nisso, uni os prós e contras de cada um.

Porque preferir eleições ao BBB:
- o Brasil está longe de ser um país perfeito e tem muita coisa a ser discutida. Eleição é a hora para isso. Não é hora de ficar vendo TV achar que tudo está ótimo se o seu BBB favorito vence
- é muito mais importante para o país debater mudanças estruturais e gastos públicos do que ver um programa de TV e decidir quem fica milionário ou não
- o Big Brother não traz nenhum retorno ao telespectador. O dinheiro do vencedor é problema dele. O ex-BBB não faz nada que influa na sua vida. Só serve para ser admirado, mesmo que não faça nada. Para completar, o povo ainda paga ligação e sms pra escolher o eliminado.
- tem gente que cria idolatria pelo participante do programa, mesmo sabendo que a profissão dele é "ex-BBB".
- ninguém merece aquelas revistas, programas de tv e sites que só falam do programa, dos personagens, das intrigas e fofocas.
- por fim... os BBBs são tontos, superficiais, cheios de plásticas, arrogantes, falsos e tudo mais.

Claro... mas e o outro lado, como fica?

Porque preferir BBB a eleições:
- quem assiste, assiste porque quer e vota porque quer. Não tem essa de voto obrigatório, horário eleitoral.
- o dinheiro do cara do BBB é dele? Melhor ainda. E o dinheiro do povo que o político usa mal, quando não usa em benefício próprio?
- BBB te irrita? E os jingles de campanha? E o carro de som? Já viu santinho de BBB espalhado pelo chão?
- na política não tem ninguém que cria idolatria por um candidato? Não tem o sujeito que trabalha na profissão "candidato"?
- ninguém merece a cobertura eleitoral e eleitoreira de alguns jornais, tvs e revistas sobre as eleições!
- você vai me dizer que não conhece nenhum político ou candidato que seja tonto, superficial, cheio de plástica, arrogante, falso, e PRINCIPALMENTE "tudo mais"?

*em tempo: também surgiu no Twitter a campanha "troque o BBB por um livro". Cito o brilhante adendo de @jota66: Se o livro for do Paulo Coelho "troque o livro pelo BBB'.
**aviso aos navegantes: estou tentando dar ideias, questionar, discordar do senso comum. Não estou fazendo campanha pela Globo, ou pelo BBB. Gosto de política e não assisto o reality show. Só estou levando a questão. OPINE!