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quinta-feira, 24 de maio de 2012

Chamar corintiano de ladrão não é racismo ou preconceito de classe?


Não sou corintiano e nem adepto do discurso politicamente correto a qualquer custo. Discurso esse que tem se tornado um patrulha e provocado ações judiciais desnecessárias como a investigação do vídeo-clipe de Alexandre Pires e muitos outros pedidos de retratação contra humoristas mundo afora.

Em todo caso, um tipo de piada com corintianos passa incólume a essa patrulha e não entendo porquê. Talvez seja porque, como alguns definem, o politicamente correto não deixa de ser uma arma de quem tem alguma força política para manifestar sua opinião.

Fato é que é corriqueira a associação jocosa corintiano/ladrão/analfabeto. Por que isso? Bom, o Corinthians tem uma das maiores torcidas do Brasil, é conhecido como time popular e não é segredo para ninguém que boa parte dessa torcida vem das camadas mais pobres (caso do Flamengo também, por exemplo). Tanto que os próprios corintianos assumiram a alcunha de "Maloqueiros".

Também é fato que negros e pardos são maioria nas camadas mais pobres da população brasileira. Ou seja, a associação vem na esteira da relação que estabelece que pobre e negro é também analfabeto ou ladrão. Ora se há analfabetos no país, isso é retrato da educação precária do Brasil. Já chamar todo um segmento da sociedade de ladrão é generalizar e denegrir a imagem de um grupo.

Fazer esse tipo de piada com corintianos me parece uma atitude racista, ou no mínimo, um preconceito de classe. Muitos outros tipos de piadas foram tachados - com razão - de machistas, racistas ou homofóbicas e aos poucos passaram ao lodo do politicamente incorreto. Será que nesse caso, isso vai acontecer?

* em tempo: até segunda ordem, a piada com a falta de títulos na Libertadores segue valendo. E é engraçadíssima!


domingo, 20 de maio de 2012

Paulistices


Moro em São Paulo há mais de dois meses, uns 80 dias que já me valeram uma volta ao mundo, menos pelas aventuras do livro de Júlio Verne e mais pela quantidade de culturas e de povos que já vi pela cidade.

Fora o sotaque nordestino bem mais comum que o paulista, nas ruas vejo grupos de africanos conversando num idioma que eu não faço a menor ideia qual seja, japoneses, chineses e boliviano, sendo que os primeiros são os que mais me intrigam. O que faz uma pessoa arriscar a vida noutro lugar que usa outro alfabeto e que fala um idioma completamente diferente? É a crise. Claro, sem contar os turistas que vivem olhando para cima com suas máquinas fotográficas e para trás procurando os colegas de excursão mais lentos.

São Paulo mistura uma tecnologia que eu nem imaginava que fosse ver com um recorte do passado que eu pensava não existir mais. Há televisões em ônibus (na verdade passam slides, mas já um primeiro passo) exposições interativas e ainda existissem engraxates e lojas de máquinas de escrever. Sim, só de máquinas de escrever.

Eu não fazia ideia de quantos mendigos existiam em São Paulo. Vê-se até famílias inteiras nas ruas vestindo trapos e com um mau cheiro que se percebe há uns dois ou três metros de distância. Impossível não constatar: não se vê muitos cães no centro da cidade porque a concorrência com seres humanos por comido é desleal aos irracionais.

Por aqui se acha de tudo. Sem procurar, tropeça-se uma banda. Elas que são tão raras em Bauru. Há também uma efervescência política na Avenida Paulista, marchas, paradas, megafones na Praça da Sé.

O caminho pelas ruas do centro é uma sequência de abordagens, perguntas e afirmações. Vai comprar ouro? Eu leio sua mão, trago a mulher amada. O demônio está entre nós. Amigo, almoço por quilo é aqui. Tem um real? Onde é a Boa Vista?

Nas ruas ainda se vê emos e metaleiros, mas são mais comuns aqueles que misturam calça jeans, camisa branca com algum desenho ou frase, cabelos coloridos, jaqueta xadrez, óculos de armação grossa e de cor viva, ou com calça xadrez, camisa colorida, jaqueta jeans, ou dois desses quatro itens. Ou todos e mais alguma coisa. São de tantas tribos, muitas vezes de mais de uma. Ou às vezes de nenhuma. 

São Paulo bem vale uma foto. 

terça-feira, 27 de março de 2012

Por favor, fique de pé - Em defesa do stand-up (ou Provocando Thiago Teixeira)

Tenho ouvido de pessoas que eu jamais denunciaria (muito menos num título de texto) que o formato de humor stand-up é um problema para o humorismo e vem sendo utilizado para fins indevidos. Não concordo. Acredito que esse velho-novo estilo trouxe de uns tempos para cá um alívio para a produção humorística nacional. Vou explicar, e para relaxar entre cada parágrafo reproduzo uma frase de um stand-up que vi por aí. 

A comédia stand-up (os humoristas não cansam de explicar) é feita pelo humorista sem figurino, maquiagem ou perucas, e é composta de um texto 100% autoral, em que o homem do microfone relata fatos do cotidiano, comenta filmes e relata experiências. Tudo isso usando os princípios básicos do humor de surpreender e fazer rir. 

“Já reparou que quando a vendedora pergunta ‘em que posso te ajudar?’ sua primeira intenção é responder ‘morrendo’?” – Rafinha Bastos

São essas regrinhas que permitiram um fôlego a mais para nossa produção humorística. Nos anos 90 e começo dos anos 2000 presenciávamos uma avalanche de personagens regadas a piadas Adão-contou-pra-Eva-e-ela-já-sabia e imitações que não saíam do eixo Roberto Carlos – Lula – Caetano Veloso – Romário – Maria Bethânia. Nessa leva, em meio a talentos, como Tom Cavalcante, Shaolin e Ceará, sobravam os de talento questionável.

"Sempre que você vai sair para uma festa sua mãe te chama num canto e fala 'filho, não vai não. Eu to um mau pressentimento...' Por que mãe nunca tem bom pressentimento?" Thiago Carmona

Deixando de lado o talento – algo mais subjetivo – iremos concordar que o essencial no humor é a criatividade e ela andava em falta. O stand-up basicamente impede isso, força uma reflexão humorística e ainda abre espaço para aqueles que não pretendem imitar vozes ou que não se sentem à vontade contando piadas por traz de uma máscara. É uma opção.

“Um dia num avião, uma pessoa passou mal, a aeromoça perguntou se tinha um médico a bordo e o cara levantou da poltrona e foi até o passageiro como se fosse um herói. Nunca vai acontecer de uma aeromoça pegar o microfone e perguntar ‘estamos com uma emergência, tem algum humorista no avião?’” – Fábio Rabin

Isso não quer dizer que esse formato de humor seja novo (Chico Anysio, José Vasconcelos e Jô Soares já fazia lá pelos anos 60) e muito menos quer dizer que todos os seus representantes sejam bons. Como toda moda, há os que copiam piadas, os que não têm graça e claro, os que testam os limites do humor e acabam recebendo vaias e críticas.

“Outro dia eu visitei Palmas, Tocantins. É estranho porque a cidade tem 20 anos. Eu sou mais velho que a cidade. Agora eu sei como a Hebe se sente em São Paulo” – Léo Lins

Ultimamente, não faltam confusões. Piadas racistas, machistas, de cunho ideológico e até aquelas em que o humorista satiriza sua própria situação e provoca polêmica (Ben Ludmer apanhou depois de brincar com o fato de ele próprio ser judeu). Onde está a novidade nisso? Em nenhum lugar. Esses estilos de piada sempre existiram. Há sim piadas pesadas e há aquelas em que o comediante erra na dose e passa a fronteira do humor para entrar na ofensa gratuita. Não é algo intrínseco à comédia stand-up. É algo anterior e que está presente em suas manifestações, mas que não podem ser traduzidos como sua essência. 

“Resolvi comemorar meu aniversário de namoro levando minha namorada para comer fora. Aí na fila do bandejão...” – Marcelo Mansfeld

O stand-up tem piadas que já perderam a graça, claro. Associações como Corintiano/Ladrão, São Paulino/Gay, Lula/Analfabeto, Hebe/Velha e Ronaldo/Travesti há um bom tempo são indicativas de textos menos originais. 

“O seriado chama Malhação e há 15 anos que não aparece uma academia. É por isso que o Mocotó ficou gordo daquele jeito” – Maurício Meirelles

O fato é que esse estilo traz um monólogo quase teatral, uma série de apontamentos e reflexões frutos de uma observação rigorosa que além de fazerem o público pensar provocam algo ainda mais saudável – a risada. A crítica está lá presente, de diversas formas, feita de diversas maneiras e não gostar da piada nada mais é do que um outro tipo de crítica. 

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A incompreensível política partidária das eleições em SP

Não faz sentido gastar neurônios para tentar entender o emaranhado político atual em torno das eleições na cidade de São Paulo. O que não faltam até o momento são jogadas surrealistas para a corrida municipal. 

Os três principais partidos na disputa apresentam hoje candidatos inimagináveis há um ou dois anos, o que gera ou segue gerando crises internas e confusões na mente do eleitorado, o último a saber das decisões partidárias. 

A exemplo da indicação de Dilma, o ex-presidente Lula deixou de lado as vozes do Partido dos Trabalhadores para empurrar um ministro para a chancela do voto. Depois de demover petistas históricos de concorrer, como Marta Suplicy e Mercadante, o PT preferiu concentrar esforços em promover Fernando Haddad como o candidato ideal para a metrópole. 

A cúpula do PMDB foi além no exercício de ignorar os membros tradicionais da legenda. Em busca do executivo paulistano, o partido de Michel Temer vai mostrar a foto de Gabriel Chalita aos eleitores que apertarem 15 na urna eleitoral. Trata-se do mesmo escritor recém-ingresso na política que há um ano e meio levantava a bandeira do PSB.

Mas o passo mais arriscado nos jogos partidários ainda não é uma certeza. O PSDB pode ignorar Bruno Covas, Andrea Matarazzo e José Anibal numa tacada só ao lançar – mais uma vez – José Serra na corrida pela prefeitura. Visando uma porção maior do eleitorado, os tucanos correm o risco de dar pano para manga para uma porção ainda maior de eleitores – a dos anti-Serra, que irão certamente jogar no tabuleiro uma carta conhecida: a antiga ambição do ex-governador em tornar-se presidente, a despeito da administração municipal. 

Quem está de fora dos intensos registros de fogo-amigo nos recantos políticos de São Paulo é justamente o mais importante elemento das eleições. Kassab assume abertamente apoio ao PSDB no caso da candidatura de José Serra, tornando-a impossível em contrário, como se todo o apoio vindo do PSD e de seus eleitores só tivessem uma explicação personalista, sem qualquer mérito ideológico, uma vez que a desistência do ex-presidenciável tornaria certa a aliança do atual prefeito com o PT. 

A coligação PMDB-PT também é outro discurso ambíguo. Chalita e Haddad evitam o confronto direto, a ponto de admitir uma já costurada aliança no segundo turno, como se a derrota de um deles fosse certa.  

Enquanto isso, nada se fala das questões de interesse do paulistano. O debate que se desenhou na operação da PM na Cracolância perdeu força. Até o momento, as eleições ainda são uma questão partidária. Nada de discussão política. 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

SOPA, PIPA, Megaupload e afins

Uma corrida aos pen drives e CDs graváveis como forma de garantir o que é seu foi a reação inicial a aparente adoção da linha-dura para reprimir a pirataria digital. Na mesma semana em que dois projetos de lei no Congresso norte-americano ganharam fama para deleite dos amantes de trocadilhos (SOPA e PIPA - Stop Online Piracy Act e Protect IP Act), o FBI prendeu os executivos do site Megaupload, tirando-o do ar.

O site recebia e armazenava arquivos dos usuários e na maioria dos casos qualquer internauta podia baixá-los dados, desde que tivesse o link de acesso. E isso acontecia com filmes, músicas e até discografias completas, sem qualquer restrição à quebra de direitos autorais. No mesmo rumo do birô norte-americano, parlamentares planejavam aprovar duas leis que permitiriam ao governo bloquear qualquer site no mundo que desrespeitasse os direitos autorais, com ênfase, é claro, naqueles que violassem obras dos Estados Unidos.  

As duas posturas (proposta e ação) juntas provocaram a revolta de internautas, dispostos a hackear páginas de corporações e a combater ações repressivas, dizendo-se a favor da liberdade de expressão que a vida online nos trouxe.

Há restrições quanto às posturas dos dois lados e eu as expresso aqui.

Onde os defensores do Megaupload e afins erram

O direito autoral descende do direito de propriedade material, algo igualmente controverso e polêmico. A propriedade do pai passa para o filho? E se ele tiver vários filhos? E se ele não usa a propriedade? E se a empresa proprietária faliu? Não é fácil responder, vide a ação da polícia em São José dos Campos.

E como definir o dono de uma música ou de um trecho dela? De um quadro? De uma foto? Algumas músicas caíram em domínio público (não sei por que a frase lembra a expressão “cair em desgraça”). Mas para ouvir a versão que a Orquestra Sinfônica fez de uma música de Mozart não pense que a orquestra lhe entregará de mão- beijada. Os direitos da execução são dela.  

De qualquer modo, os direitos autorais existem porque alguém faz a música, o filme, o livro. Como eles ficam?

Em primeiro lugar, há algumas alegações simplistas para defender Megaupload e sites relacionados. Por exemplo: baixar arquivos não causa prejuízo às produtoras. Causa sim. Prejuízo para elas e para gravadoras, artistas, cinemas, locadoras. É comum alguém dizer: “mas a Fox ou a Warner atuam explorando artistas, monopolizando o circuito do entretenimento e faturam milhões de dólares”. Ok, mas não conheço ninguém que tenha dito: “eu só faço download de filmes da Warner, porque ela não é legal.” Baixa-se de uma e outra e a tese das grandes produtoras cai por terra.
  
Outra afirmação é de que o download é menos perigoso do que comprar CDs piratas porque não alimenta máfias ou qualquer outro tipo de organizações criminosas. Em parte é verdade. Na pirataria material o dinheiro vai para alguém. Mas ao baixar arquivos você pode ganhar de brinde um vírus – ainda mais quando o download se populariza mais do que a segurança na internet. Sem contar que uma das ações criminosas apontadas pelo FBI foi o fato de o Megaupload ganhar dinheiro com anúncios. Você não gasta, mas de alguma forma o intermediador ganha um dinheiro para usá-lo como quiser. Se vai comprar um Cadillac amarelo ou armas, não se sabe.

Os prejuízos estimados à indústria do entretenimento provocados pelo site derrubado giram em torno de 500 milhões de dólares segundo o FBI. Pode ser que a polícia norte-americana tenha valorizado a cifra, mas é inegável que alguém perde nesse processo.

Talvez o rombo não seja tão visível quando se toma como referência o usuário. Aquele que recebe e usa o produto baixado. Mas vamos para o ponto de vista do criador. Aquele que compõe, dirige, atua, filme, escreve e edita. Sua produção perde o valor e a tão sonhada profissionalização artística torna-se impraticável. Quase ninguém vive por música.  Imagine uma foto, frase ou criação sua caindo na rede e ninguém seque lembra quem é você. Revoltante? Imagine se alguém lucrasse sobre isso então.

Onde a visão de mercado das produtoras é limitada

O ataque às grandes produtores tem origem em alguns argumentos certeiros. O preço dos DVDs e CDs sempre foi exagerado, embora tenha caído recentemente. Não é provável que alguém esteja disposto a pagar 40 reais em um filme que ele nem sabe se vai gostar. Isso sem contar os abusos cometidos contra o pobre colecionador. Algo que eu irei abordar em outra ocasião. Sugestão? Recorra a uma locadora. Ok, dá certo se você quiser ir ver um filme mais recente.

E quando se trata daquele filme B? O primeiro em que aparecem Tom Cruise ou Cameron Diaz, por exemplo. Ou aquele filme argentino que bateu na trave no Oscar. Você não vai encontra-lo tão facilmente em uma locadora, loja e não espere contar com a Sessão da Tarde.

A possibilidade de se ter acesso a filmes clássicos parece um avanço cultural trazido pela internet. Traz uma enorme finalidade educativa e é estranho dizer que baixar um filme de 1956 esquecido pela Universal possa representar algum prejuízo à produtora.

Outro argumento de defesa é o tiro saindo pela culatra. O mercado se vê prejudicado pela pirataria, mas ela segue alguns ditames do mercado. Veja o caso do vídeo on demand. Assista algo na hora que você quiser! Essa liberdade de escolha não fazia parte do mercado liberal, em que a exibição de um filme ou música tinha horário determinado e limitado.

A mudança de cultura foi tão grande que as próprias emissoras de TV agora disponibilizam vídeos on demand gratuitamente em seus portais. E assim o usuário que baixa uma série no Megaupload vai defender-se dizendo que só quis assistir o Two and Half Men um pouquinho antes de a atração ser exibida na Warner, porque naquele dia marcado para a estreia não vai dar, sabe?

Os acessos e comentários nas redes sociais podem até indicar se compensa uma emissora nacional trazer para cá um seriado americano, se um CD merece mais atenção das gravadoras do que o previsto ou se um livro merece uma reedição mais bem tratada.

Resumo

Há nesse assunto um claro choque entre o modelo antigo e o modelo novo. Hoje, bandas lançam suas músicas somente pela internet. Não são todas as que dão certo e que lucram em shows, mas também não eram todas as bandas convencionais que se tornavam famosas nos anos 60.

Segundo a empresa de consultoria canadense Sandvine, o site Megaupload já chegou a ocupar 11% do tráfego na internet aqui no Brasil. Não é uma cifra desprezível, legalmente ou não.

Mesmo ao recuar da aprovação imediata do SOPA, um dos seus autores, o deputado republicano Lamar Smith, declarou que é preciso criar uma lei que proteja invenções norte-americana de ladrões estrangeiros. Nada mais parecido com filme de James Bond do que a prisão de um alemão que mora na Nova Zelândia. Daqui a pouco a família de Ian Fleming cobra direitos autorais nessa ação.

De todo mundo, é relevante questionar a duração dos direitos autorais. No Brasil eles duram 70 anos depois da morte do autor. Mário de Andrade não se encaixa nesse grupo até 2015, por exemplo. Até mesmo os lucros aos autores vivos são questionáveis. Quem não gostaria de se sustentar por algo produzido há 10, 20 anos? É até um convite a parar de produzir, diriam alguns.

Os filmes deveriam cair em domínio público em menos tempo ainda. É difícil enxerga-los como lucrativos vinte ou trinta anos depois do lançamento, por exemplo, mas nem por isso deixam de ser fonte de cultura e entretenimento.  

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

A esquerda precisa repensar os seus ídolos

No fim do ano li um livro que considero genial: Guia Politicamente Incorreto da América Latina, a exemplo da primeira obra de Leandro Narloch (que trata apenas do Brasil), seu texto busca desmentir mitos ao redor de personalidades da parte de cá do continente.

Coincidência ou não, a munição é destinada na maioria das vezes aos líderes ditos de esquerda, tais como Che Guevara e Salvador Allende ou aos líderes que não sabiam que era do lado de lá do muro até assim serem declarados, como Simón Bolívar e Perón.

O que acho interessante dos dois livros é que o autor não usa argumentos direitistas* contra os comunas. Na realidade, sua principal metodologia é mostrar que os grandes ícones da esquerda provavelmente seriam taxados de conservadores se analisados com mais profundidade pelos seus colegas de doutrina política.

Leandro Narloch e Duda Teixeira mostram com base em documentos que Che era um fanático por assuntos militares. O que não é muito difícil de constatar uma vez que ele é sempre retratado de verde-oliva. Para completar, o argentino também admitiu em pronunciamento na ONU que havia fuzilamentos em Cuba. Daí a pergunta: por que ele é o grande estandarte dos movimentos pacifistas?

Já Salvador Allende geralmente é retratado como o Getúlio Vargas chileno. Aquele que deu a vida pela pátria para evitar um golpe militar. O problema, de acordo com os autores, é que Salvador se parecia mais com o presidente brasileiro do que se costuma divulgar: censurou a imprensa e perseguiu opositores. O livro também mostra sua vertente racista quando de sua atuação como médico e ministro da saúde: afirmou que algumas doenças são mais frequentes em judeus, ciganos e negros, e ainda tentou emplacar a esterilização em massa de doentes mentais.

A Argentina também teve o seu Vargas. Perón subiu ao poder por meio de um Golpe e de lá custou a sair. Quando esteve no poder apresentou ideias simpáticas ao regime fascista e de quebra acudiu vários fugitivos nazistas. Como pode ele ser o ídolo da viúva Kirchner e ainda ser abraçado pela esquerda?

Já Bolívar é apontado por Hugo Chávez como um pré-socialista. O libertador da América. Logo ele que trocou a ditadura espanhola por uma pessoal. E quem é a fonte mais usada pelos autores para desmoralizar Simón? Ninguém menos que o autor de O Capital e do Manifesto do Partido Comunista. Karl Marx retratou o militar como estrategista covarde que seguramente tentava afastar do poder os pobres e os negros.

Aonde quero chegar? Até que ponto é válido tornar imaculadas as imagens de líderes nacionais ou continentais, de modo a tornar inquestionáveis as suas condutas? E o que fazer se se descobrir o contrário? Jogam-se livros no fogo e busca-se sofismas para fazer valer uma visão de mundo?  

*a classificação esquerda/direita é relativa. A definição da primeira vertente como aquela que busca uma nova sociedade e da outra como aquela que visa mantê-la não faz muito sentido. Os democratas são, por exemplo, considerados a esquerda norte-americana, ao ponto que houve diversos partidos comunistas na Rússia pré-revolução de 1917 foram considerados reaças. 

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Ministro da Verdade

Quando o escritor britânico George Orwell sentou em sua cadeira para escrever sua obra-prima, imaginou um catastrófico cenário futurista em que uma espécie de mescla fascista-socialista dominaria o mundo, suprimindo liberdades civis e até mesmo cortando pela raiz o pensamento crítico das pessoas. Todo canto do planeta era vigiado pelas câmeras do governo, os olhos do hipotético ditador Grande Irmão (Big Brother, para os íntimos), que aliás emitia ordens à população assim que achasse necessário. Enfim, uma espécie Pedro Bial sem aquela filosofia toda.

Nesse mundo catastrófico, o Ministério da Paz promovia a Guerra, o Ministério da Fartura rateava parcamente rações para a população enquanto o Ministério da Verdade nada mais fazia do que reescrever páginas de jornais e revistas antigas de modo a alterar a História e mostrar como tudo que acontece é ótimo (por exemplo, "a ração de 200 gramas de arroz aumentou para 300 gramas", sendo que na realidade há um mês a cota era de 400 gramas).

Orwell foi brilhante, mas errou num detalhe. Chutou um ano qualquer para o título de seu livro e eternizou o ano de 1984. Mal sabia ele que se escolhesse 1985 acertaria o ano em que uma espécie de ministro da Verdade herdaria a presidência de um país por aí, desses que saiam de uma Ditadura Militar.

José Sarney parece necessitar dos serviços do Ministério da Verdade para validar algumas declarações recentes. Para o senador, não havia necessidade de exibir fotos da época do impeachment de Fernando Collor quando de sua queda do poder em 1992 na galeria de fotos da história do Senado. "Não é marcante" comentou, talvez em um mesmo tom em que vociferaria "Ninguém aqui sabe de ato secreto" em uma daquelas câmeras/microfone espalhadas pelo país fictício de Orwell.

Agora, o maranhense defende que documentos estatais secretos assim permaneçam por toda a eternidade. "Não podemos fazer Wikileaks da história do Brasil", afirma ele, sob o argumento que a atitude poderia abrir feridas diplomáticas.

Sarney é o homem do partido da Ditadura que foi eleito como primeiro presidente civil pós-Ditadura. O homem que institui o congelamento dos preços para que os preços não subissem. O homem do Maranhão que foi eleito senador pelo Amapá.

Pois é. Ele reinventou o Ministério da Verdade.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Desânimo na faculdade... culpa dos cursinhos

Alunos de faculdades públicas decepcionados com o ensino que estão recebendo. Quem são os grandes culpados? É tentador responder que é o governo, mas minha primeira resposta seria: a culpa é do mercado.


Por que? Os cursinho pré-vestibular. Vou partir do meu exemplo: as aulas eram divertidas, interessantes sim, mas os professores sempre tocam no mesmo ponto: "O importante é passar numa faculdade pública". O motivo? "É bom para o currículo" diziam os mestres. Nas particulares reina o "pagou passou".

Dado esse discurso, as instituições USP, Unesp e Unicamp se tornavam aos poucos em grandes pesadelos - e metas - de todo estudante. Se a pergunta não cai nesses vestibulares (incluindo também as federais e estaduais do restante do Brasil) não tem importância. Mas se cai, tem que saber responder. Tem que passar.

Depois disso, os cursinho só precisam somar o número de aprovados e colocar no jornal: Cursinho X, 00 aprovados na faculdade y, no curso Z.

Quando o estudante alcança o seu objetivo (ou o objetivo do cursinho?) chega na faculdade e se depara com um ensino extramente crítico ao mercado - vou me limitar a falar dos cursos de humanas e comunicação. Até aí, nenhum problema. Aliás, melhor ainda. Mas em muitos casos a filosofia de ensino de alguns cursos de faculdade públicas praticamente ignora o mercado. Centra-se na pesquisa, nos projeto sociais, nas ONGs, no trabalho acadêmico. Pouco ou quase nada fala-se do mercado. Ou critica-se o dito cujo.

O estudante que chegou empolgado para entrar no mercado se depara com aulas que não falam do mercado. Em alguns casos, quando vai buscar emprego, percebe que o peso dado a instituições públicas não é maior que o dedicado às particulares.

Aí reside a culpa dos cursinhos. Ao invés de salientar as peculariedades do modus operandi do Estado (por meio das universidades estaduais e federais) e da iniciativa privada, centra-se em inflar a idéia de que o importante é passar numa USP ou Unesp e que as faculdades particulares são indústrias do ensino [olha só quem está falando].

Claro, Fuvest e Vunesp também tem culpa no cartório. Querem abraçar o mundo nas suas provas, mas abrem pouco espaço para esse tipo de reflexão.

Resultado? O estudante que passou no vestibular, se decepciona. Os professores universitários se decepcionam com alunos "alienados" que só pensam no mercado. Os empregadores se decepcionam com os recém-formados que pouco tiveram aulas práticas. Talvez porque ouvissem falar tão bem de universidades públicas e tivessem traduzido isso para "vão trabalhar melhor para mim".

A indústria do vestibular, alimentada pelo pensamento do mercado acaba vitimando [olha só!] o próprio mercado.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

BBB ou eleição? Eis a questão

Resolvi provocar nesse meu primeiro post em 2011!

Um pouco antes de começar o Big Brother eu li, via Twitter, um desabafo "Prefiro 3º turno de eleições à BBB11 no Twitter". E quando se fala em Twitter*, se fala na vida real.

Na hora achei engraçado e até retuitei (quem não entendeu pergunta pro filho), mas depois pensei mais sobre a asseveração (quem não entendeu pergunta pro papai).

Eu não assisto Big Brother, mas nessa luta, resolvi defendê-lo**. Ou ao menos lançar argumentos para uma matutação.

Vamos lá. Para quem gosta de política e não gosta de produtos de massa, é inevitável ir direto na primeira opção. Mas pera lá. Pensando nisso, uni os prós e contras de cada um.

Porque preferir eleições ao BBB:
- o Brasil está longe de ser um país perfeito e tem muita coisa a ser discutida. Eleição é a hora para isso. Não é hora de ficar vendo TV achar que tudo está ótimo se o seu BBB favorito vence
- é muito mais importante para o país debater mudanças estruturais e gastos públicos do que ver um programa de TV e decidir quem fica milionário ou não
- o Big Brother não traz nenhum retorno ao telespectador. O dinheiro do vencedor é problema dele. O ex-BBB não faz nada que influa na sua vida. Só serve para ser admirado, mesmo que não faça nada. Para completar, o povo ainda paga ligação e sms pra escolher o eliminado.
- tem gente que cria idolatria pelo participante do programa, mesmo sabendo que a profissão dele é "ex-BBB".
- ninguém merece aquelas revistas, programas de tv e sites que só falam do programa, dos personagens, das intrigas e fofocas.
- por fim... os BBBs são tontos, superficiais, cheios de plásticas, arrogantes, falsos e tudo mais.

Claro... mas e o outro lado, como fica?

Porque preferir BBB a eleições:
- quem assiste, assiste porque quer e vota porque quer. Não tem essa de voto obrigatório, horário eleitoral.
- o dinheiro do cara do BBB é dele? Melhor ainda. E o dinheiro do povo que o político usa mal, quando não usa em benefício próprio?
- BBB te irrita? E os jingles de campanha? E o carro de som? Já viu santinho de BBB espalhado pelo chão?
- na política não tem ninguém que cria idolatria por um candidato? Não tem o sujeito que trabalha na profissão "candidato"?
- ninguém merece a cobertura eleitoral e eleitoreira de alguns jornais, tvs e revistas sobre as eleições!
- você vai me dizer que não conhece nenhum político ou candidato que seja tonto, superficial, cheio de plástica, arrogante, falso, e PRINCIPALMENTE "tudo mais"?

*em tempo: também surgiu no Twitter a campanha "troque o BBB por um livro". Cito o brilhante adendo de @jota66: Se o livro for do Paulo Coelho "troque o livro pelo BBB'.
**aviso aos navegantes: estou tentando dar ideias, questionar, discordar do senso comum. Não estou fazendo campanha pela Globo, ou pelo BBB. Gosto de política e não assisto o reality show. Só estou levando a questão. OPINE!

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Mais uns conselhos ao revoltado

Sobre o texto do Jota, eu reuni mais alguns conselhos aos revoltados:

1 - é terminantemente proibido usar o termo "companheiros". Chamar os colegas manifestantes de "camaradas" então nem pensar.

2 - pode cantar! É bom, faz bem pra saúde, faz mais barulho... mas "um, dois, três, quatro, cinco, mil" vai pra puta que o pariu!

3 - seria magnífico chamar a atenção do máximo de gente possível, mas não faça isso parando uma avenida, sobretudo da maior cidade da América Latina. Pode ter certeza que nenhum veículo de comunicação vai dar atenção pro motivo do protesto, só pra consequência. Você só conseguirá atrair a antipatia do povo.

4 - Pelamor!! INOVE!


sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Apartheid estudantil

Na cidade de Bauru, localizada no centro do Estado de São Paulo, é cada vez mais comum a proibição do aluguel de apartamentos para estudantes. Fora isso, vários proprietários de casas se recusam a alugar imóveis a universitários.

Vamos começar de maneira radical: proibir estudantes em apartamento é o mesmo que proibir negros, pobres. Ou seja: puro preconceito.

Escutei um cidadão dizendo: "Não é preconceito. É uma situação que eles mesmos criam, fazendo baderna. Só quem mora ao lado de república sabe como é".

Não é preconceito dizer que: estudante = baderna?

Não estou dizendo que estudante não exagera. Alguns exageram sim. Fazem barulho, festas até o início da manhã seguinte. Mas se fazem isso, estão quebrando a lei do silêncio pós 22h. Daí baixa polícia na frente da casa e tudo mais.

E quanto aos apartamentos? Estudantes fazem barulho. Sim, alguns fazem. Mas se o condomínio pode colocar multas (no meu prédio a multa é de R$ 500 reais!!!) o barulho diminui. Do mesmo jeito muitos não-estudantes fazem barulhos e aprontam as suas nos condomínios. Eles só não são etiquetáveis.

Uma coisa é repreender e punir quem comete excessos. Outra coisa é simplesmente proibir alguém de entrar ou morar em um lugar porque outros da "mesma classe" (falam de classe de estudantes fosse uma coisa homogênea) fizeram bagunça.

Quem procura um lugar para morar, ao saber das regras daquele local, fica ciente do que pode ou não fazer. Mostrar o que pode ou não pode é completamente diferente de (e muito mais difícil que) proibir todos que um dia talvez, quem sabe, numa hipótese, possam vir a infringir a regra.

É a punição a quem não fez nada errado.

E mesmo quem exagera é tratado de maneira extremamente preconceituosa, como se aquele "pai de família" (e nem dá pra sabem o quão 'pai de família' que diz isso realmente é) nunca tivesse sido jovem, aprontado as suas. Como se nunca tivesse ido numa festa, ou como se no fundo, não estivesse com enorme inveja de poder trocar aquele terno por uma roupa casual e entrar na festa do "vizinho bagunceiro".


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Aliás, em Bauru começou um apelo pela recontagem da população no Censo do IBGE. Falam em 400 mil, mas o Instituto apontou 335 mil. Os bauruenses retrucam: "mas Bauru é uma cidade universitária, tem 9 faculdades... os estudantes foram contados em outras cidades".

Na hora de inflar estatísticas lembram dos universitários.

Às vezes não dá vontade de ser contado como habitante da cidade.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Salve CQC - ou não

Pergunta: O CQC é um bom programa ou já está apelando?

Quando o Pânico na TV surgiu, há 7 anos (estou ficando velho), o programa era o máximo. Parecia algo impensável um repórter fazer piadas com o próprio entrevistado. Eu assistia o programa inteiro para poder ver o Vesgo e o Sílvio cobrindo festas. Eis que uma professora minha profetizou: "Eles são ricos e engraçados. Daqui a pouco ficam milionários e sem-graça".

E foi o aconteceu. O programa ficou repetitivo, agressivo, e não saiu daquelas histórias de sandália da humildade, porrada no Vesgo e tudo mais.

Aí surgiu o CQC. Era o Pânico politizado e com mais conteúdo. As piadas não eram mais sexuais (apenas). Tinha crítica, posicionamento político, crítica social. Os deputados tinham que responder as perguntas capciosas e se não respondessem pegava mal. Rafinha Bastos, na bancada ao lado de Marcelo Tás, dava voz às piadas pesadíssimas enquanto Marco Luque era o responsável pelas piadas (nem um pouco) inocentes. Surge também o Top Five, e as mazelas da TV brasileira são expostas. Genial.

Eis que... Danilo Gentili começou a apanhar (Vesgo 2?) Tudo bem, era o ímpeto "jornalístico" pela notícia, pela entrevista. Forças ocultas agiam contra o programa televisivo. Mas depois, Rafael Cortez começou a distribuir selinhos em atrizes (Vesgo 2...).

Não dá pra dizer se a máscara caiu e dizer que de programa revolucionário, o CQC parece ter virado reacionário. Tás, durante a greve de estudantes da USP, chegou ao escrever no seu blog "Cadeia nesses vagabundos!" se referindo aos estudantes. Parecia até apresentador do Balanço Geral.

Durante a eleição de Dilma Rousseff mais uma do CQC pegou mal: "Danilo Gentili foi agredido por militantes do PT" denunciou Tás no Twitter. Absurdo, com certeza. Mas não era nada disso. Ele mesmo admitiu depois no Twitter: "Danilo Gentili foi agredido por seguranças do hotel onde Dilma estava hospedada". Segurança virou petista. Para completar, o apresentador dizia "Assistam o CQC e tirem suas próprias conclusões". É, pego mal para o CQC, pelo menos na minha opinião.

O CQC levanta diversas questões: é um programa jornalístico? Deve ter espaço numa entrevista coletiva? [vamos lembrar que os próprios jornalistas esportivos pediram a saída dos humoristas em entrevistas durante a Copa]. Alías, o que o CQC faz é jornalismo? A Revista Imprensa, em 2009 apontou os programas humorísticos com uma das causas da futura morte do jornalismo.

Bom, parece que daqui só vai sair uma chuva de críticas, mas pelo contrário. Eu adoro o CQC, acho o melhor programa da TV na atualidade e quando não consigo assistir vejo na Internet.
Acho que Marcelo Tás é um ícone do jornalismo de humor - daí pra saltar dizendo que é jornalismo eu fico em cima do muro. Se não concordamos sobre o jornalismo, garanto que entretenimento mais informativo que o CQC não há.

Na verdade, os repórteres do CQC fazem algumas perguntas muito melhores que as de outros jornalistas. A criatividade das matérias, dos assuntos e das edições acabou servindo de lição para o noticiário fraquinho que a gente via por aí. Alguns dos assuntos levantados no programa pautaram o noticiário nacional - violência de seguranças, mordaça aos humoristas são alguns exemplos.

Há quem diga que o programa ridiculariza o jornalismo e a política. Eu acho que o programa questiona e altera ambos.

E vocês? O que acham?

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Uma Tropa do Barulho

O filme Tropa de Elite 2 não é exatamente a continuação do filme Tropa de Elite. É na verdade uma desconstrução do primeiro filme: Capitão Nascimento, agora Coronel e sub-secretário percebe que tudo o que havia feito - entrar em favela matando traficantes - era manter o "Sistema" (no sotaque do personagem, sissstema) que ele tanto incriminava.

No primeiro filme, há um maniqueísmo entre o policial honesto linha-dura no lado do bem e o traficante desalmado e policiais corruptos ou no mínimo negligentes no lado do mal. Agora, Coronel Nascimento percebe que não deveria lutar contra traficantes, nem contra usuários de drogas que sustentam traficantes. O problema vem de cima.

No primeiro filme há uma série de bordões jogados para o espectador. No segundo há uma série de detalhes de uma trama muito mais grave que um tiroteio ou uma invasão numa favela.

Em Tropa de Elite 2, o protagonista entra para o "Sistema" para tentar combatê-lo por dentro. Inicialmente percebe que aos poucos estava se entregando ao "Sistema", depois percebe que sempre fez parte dele. Que sempre fizemos parte dele. Matando traficante, o Capitão Nascimento não encostava em nenhum um fio de cabelo dos políticos que favoreciam o tráfico.

Tropa de Elite 2 é uma aula de ética sem citar qualquer teórico. Além disso, é uma aula de jornalismo: um dos vilões é apresentador de um daqueles famigerados programas policiais do tipo "espreme que sai sangue" que tem na televisão. Parece até uma referência ao apresentador Wallace Souza, de Amazonas, que encomendava mortes para poder exibir os corpos na TV. Outra personagem-chave é uma jornalista que vai até fundo nas investigações do tráfico aliado à política.

Aliás, política é o principal assunto do filme. "Em ano de eleição..." é a frase mais repetida pelo Subsecretário Nascimento. Tudo gira em torno de eleição. Além disso, a parte mais genial do filme é o fim da eterna dicotomia esquerda-direita. O protagonista começa ridicularizando os "intelectuais de esquerda", depois passa a depender deles. Do mesmo modo, o professor de história que casa com a ex-mulher de Nascimento começa desprezando as idéias de "bandido bom é bandido morto" do capitão do Bope, mas acaba precisando dele para instalar uma CPI. Os dois percebem que tinham os mesmo objetivos mas falavam línguas diferentes.

Na verdade, o filme rechaça o "Sistema" fazendo parte do "Sistema" - o que dizer de um filme popular cheio de patrocinadores? Cheio de telespectadores? Que em breve passará na TV Globo? Mesmo assim, o filme é o ataque perfeito ao "Sistema".

Ah, e diga-se de passagem, a escolha da música "O Calibre" dos Paralamas do Sucesso para fechar o filme foi genial.

Bom, e se Tropa de Elite virou filme da Sessão da Tarde, fica a sugestão de títulos: "Uma Tropa do Barulho" "Um Capitão da Pesada" ou até "As Aventuras de Capitão Nascimento"

sábado, 15 de maio de 2010

3º Plano Nacional do Desculpa Qualquer Coisa

O governo não recuou quanto ao 3º Plano Nacional dos Direitos Humanos. Ele desistiu e pediu desculpas. Isso porque as alterações que foram feitas mudam completamente o seu rumo. Só faltou alguém de lá falar "desculpa qualquer coisa".

Mais lamentável foi o recuo quanto à Ditadura Militar. O veto à ruas com nome de torturadores (ou autoridades que permitiram a tortura) caiu. Com isso, continuam existindo as Av Geisel, Médici, Figueiredo e vai saber lá quanto generais.

E olha que essa era a medida mais 'branda' contra contra a 'dura'. Afinal de contas, o PNDH não pode pedir o julgamento de militares porque a Lei da Anistia foi mantida pelo Supremo Tribunal Federal, numa decisão que deve levar o Brasil à julgamento pela Organização dos Estados Americanos, através da Corte Interamericana (advinha do que!!!) dos Direitos Humanos (ah, vá!).

Por falar nesta decisão do STF, o argumento de que a anistia veio para os dois lados, sendo por tanto "ampla" cai por terra, como se pode ver em reportagem da revista Carta Capital nº 595, 12 de maio. Militares acusados de subversivos, foram 'educadamente' afastados durante o Regime (de emagrecimento moral) e ainda não conseguiram reaver seus direitos.

Voltando ao Plano (que virou Plano de fuga), caiu também o "controle sobre a mídia", que obrigava aos veículos da mídia a acatar (advinha quem???) os Direitos Humanos. Vestindo a carapuça, o veículos rebateram dizendo que isso era uma censura. Poderiam ter limpado sua barra dizendo "Ué? Mas porque se eu já cumpro os Direitos Humanos?".

Além disso, a mídia majoritária se esforça em dar a entender que o "acompanhamento editorial" não é simplesmente um fulano assistindo tv e anotando o que foi ofensivo aos Direitos Humanos, mas sim, um homem carrancudo de olhar amedrontador acompanhando a produção jornalística de uma empresa de dentro da sala da redação, da sala da diretoria e da sala de reuniões.

Para completar, a pressão da Igreja Católica (que não costuma pressionar com mesmo empenho os... ah deixa pra lá) derrubou a proibição de símbolos religiosos em locais públicos. Imagine um comentarista esportivo, num programa de TV analisando um jogo vestindo o uniforme de um time. Agora imagine um umbandista sendo julgado num tribunal que expõe em destaque uma cruz.

Pra quem leu até o fim, obrigado, e desculpa qualquer coisa.

sábado, 1 de maio de 2010

Prazo de Validade

Um dos maiores argumentou contra a revisão da Lei da Anistia é o fato de que a lei teve uma importância histórica e não há motivo para apagá-la.

Mas vá lá! Até o Tratado de Tordesilhas teve importância histórica - aliás aparece em muito mais livros - e nem por isso estamos em território espanhol, não é?

Mas depois dessa decisão do STF ficamos de mãos atadas [só mãos atadas; as pernas amarradas, a fita na boca, os mergulhos forçados de tempo em tempo e os choques elétricos são intriga da oposição].

A diferença é que no contexto da época estupros, agressões e torturas se chamavam "política".

Enfim. Eu já ficaria contente com a mudança do nome de ruas e bairros que homenageam personagens que fizeram ... "política".

domingo, 20 de dezembro de 2009

COP 2ºC

Como salvar o planeta depois da COP-15:
- Evitar que a temperatura global aumente 2º C. Como?


sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Magnífico!

Eleições para reitor na USP. O vencedor é o cientista Glaucius Oliva. O segundo colocado é o jurista João Grandino Rodas. Mas é necessário que o governador do Estado de São Paulo escolha o candidato a tomar posse.

José Serra (PSDB) escolheu Rodas.

Sem nos aprofundarmos na questão de o que o governador deve fazer, ou de que regra é essa que a votação não vale nada, olha só porque o governador fez a sua escolha:

"Serra não conhece bem o cientista e tinha poucas informações sobre sua experiência administrativa." segundo noticia o Estadão.

Numa só tacada, Serra aparece como alguém mal-informado e mal-assessorado. Desse modo, que condições ele tinha de escolher o novo reitor?

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Psiu

Psiquiatra mata 12 pessoas em base dos Estados Unidos

Esse cara está precisando urgentemente de um psicopata.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Diploma pra quê né?

Foi com surpresa que vi a assinatura de Judith Brito no fim de um texto tortuoso e mais de uma vez incoerente da presidente da Associação Nacional de Jornal a respeito do fim da exigência do diploma de jornalismo.

Antes de mais nada leiam o texto.

Judith considera quase criminosa a iniciativa de parlamentares de revogar a decisão do STF, intituição responsável por mais de uma decisão parcial e duvidosa, a mais alta corte do país, como lembra a autora.

A presidente da ANJ parte da sábia classificação "o que vem da ditadura é ruim", por isso, jamais aceitará a exigência do diploma.

Mas o que mais chama a atenção pela falta de coerência é a afirmação:

"Quanto melhor preparados os profissionais de jornalismo, melhor para os cidadãos, que terão à sua disposição informações de qualidade para formar suas opiniões, para melhor entender o mundo em que vivem. Os bons cursos de jornalismo, além de ensinar as melhores técnicas para o exercício da profissão nos diferentes tipos de mídia, dão a seus estudantes a formação humanista indispensável para esse papel de interlocução com a sociedade."

Lá no fim do texto, Judith praticamente nos pede para ignorar essa afirmação:

"Disse o Supremo que a liberdade de expressão não pode ser condicionada de nenhuma forma. Quem quiser ser repórter de um jornal, por exemplo, poderá pretender sê-lo independente da formação que tenha. Da mesma forma que não se pode exigir qualquer condicionamento prévio para quem queira escrever um livro. Esse respeito à plena liberdade de expressão permite que talentos que não tenham diploma de jornalista possam dar sua contribuição ao jornalismo e à sociedade."

Afinal de contas, o jornalista deve ter boa formação ou simplesmente se quiser, irá se tornar repórter de um jornal?

Então a decisão do STF favorece quem tiver talento para jornalismo? Como disse meu amigo Thiago Teixeira, aqui nesse mesmo blog, "talento de cu é a rola". O argumento do talento é pouco claro para defender a não-exigência do diploma. Afinal de contas, quem tiver talento vai conhecer todas as teorias e e metodologias do jornalismo? Acho bem improvável.

Pra encerrar, lamentável ver a presidente de uma entidade tão importante usando o discurso típico de colunistas sem conteúdo e de políticos populistas, ambos conservadores até a medula:

"Agora, temos essas iniciativas parlamentares vindo na contramão da História"
e
"Vamos olhar para frente e concentrar nossos esforços e energia na modernização do país e na consolidação dos princípios democráticos."

Oi?