quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Por seu direito de dizer (o que eu quero)

O vídeo é longo e as melodias das músicas são muito ruins, mas cada minuto vale a pena e cada rima pobre diz mais sobre o Rio de Janeiro do que toda a Bossa Nova fantasiou. O texto que o segue, também é longo. Como ninguém lê mesmo, vou escrever o quanto eu quiser.

Grosso Calibre (High Calibre) from ShootingPoverty on Vimeo.

O pessoal do Instituto Millenium, que tem seu direito de dizer QUALQUER BOBAGEM mais do que garantido, esperneia contra o governo federal e o Conselho Federal de Jornalismo, que pra eles seria sinônimo de censura.

Tão longe de concordar com o pranto deste instituto quanto de acreditar que ele represente um Revival de Abril de 64, tenho que dar o braço a torcer, quando vejo que a censura acontece de fato no país. Pelo Estado e pelo status.

É, o MC Smith testa o Voltaire (se pá, apócrifo, vai saber) em nós. Fala muita bobagem. E, se não faz apologia ao crime, no mínimo desmistifica a posição de mocinho e vilão da história. Só que, numa certa altura do vídeo, se pá cansado de falar bobagem, que aquilo é a realidade do morro. Banquinho e violão, peixe, é só em Ipanema.

O cara teve amigos mortos pelo B.O.P.E. (santos ou não), não é um choque que não amem o Capitão Nascimento como faz a classe média. Se ele canta que usa roupas da marca X, calçados da marca Y, é por que a playboyzada o discrimina pelas roupas que usa e esse é o jeito de mostrar que pode ter o mesmo mau gosto que qualquer Mauricinho.

O Funkeiro foi preso por apologia ao crime, bem como, segundo a lei vigente, também deve ser quem faz apologia ao uso da maconha. Pela regra, se você for favorável ao aborto ou à eutanásia, é bom não sair espalhando sua opinião, que também pode sobrar pra você.

O Estadão reclama estar há quase dois anos sob censura do Estado, que não lhe permite divulgar documentos em segredo de justiça sob um processo movido contra o filho de um famigerado colunista da Folha. Contudo, paga o salário do colunista Demétrio Magnóli (veja, deve ser mal das iniciais) , que, entre lamúrias reacionárias, reclama do apoio que Lula deu ao Wikileaks, numa coluna que poderia ser chamada de "tiro no pé".

O Wikieaks não faz menos do que o jornal - que, acredite, eu admiro, mesmo não concordando- mas, ao invés de cobrar do presidente o mesmo apoio à sua causa, que se resume a um breve parágrafo no final do seu texto, Ataca o Wikileaks falando de uma teoria elitista sobre a distinção entre interesse público e interesse do público, que o colega de redação Eugênio Bucci já mostrou como está ultrapassada.

O Estadão não é santo também. Maria Rita Khel que o diga. Censura? Não, o direito de uma empresa demitir um funcionário que não trabalha de acordo com seus padrões. Estes são os pesos, e as medidas em questão.

A Folha não fica atrás. Além de ser acusada colaborar com a ditadura, o jornal não gostou muito da crítica que recebeu. Apesar de reclamar, como o restante da Imprensa, da cara feia que faz o presidente quando uma crítica o importuna, processou um site que a satirizava e tirou do ar seu antigo domínio, Falha de São Paulo. A treta é que os caras do site tem um milhão de contatos, e levantaram o site Desculpe a Nossa Falha, e estão fazendo barulho.

Curiosamente, a Folha não recebeu processos por fazer praticamente a mesma coisa.

É muito difícil não se posicionar sob as questões abordadas. Jornalista bom mesmo não consegue.
E, ao se posicionar, fica muito difícil aceitar o que o pessoal do outro lado diz. Dá muita vontade demandar calar a boca, ou de pedir pra Justiça mandar calar a boca. Um poema que você conhece, e deve achar que é do Maialovski (mas é de Eduardo Alves da Costa) explica o fim da história:

Até que um dia,

o mais frágil deles

entra sozinho e nossa casa,

(...)

arranca-nos a voz da garganta.

E já não podemos dizer nada

Pra que a voz que diz o que você quer ouvir ser arrancada como no poema, é só achar que tudo bem se, um dia, qualquer que seja, a voz do outro lado for limitada. O revide não é um jogo de soma zero. Quando um revida, o outro vai estar perdendo e vai querer revidar. Pois é.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Mais uns conselhos ao revoltado

Sobre o texto do Jota, eu reuni mais alguns conselhos aos revoltados:

1 - é terminantemente proibido usar o termo "companheiros". Chamar os colegas manifestantes de "camaradas" então nem pensar.

2 - pode cantar! É bom, faz bem pra saúde, faz mais barulho... mas "um, dois, três, quatro, cinco, mil" vai pra puta que o pariu!

3 - seria magnífico chamar a atenção do máximo de gente possível, mas não faça isso parando uma avenida, sobretudo da maior cidade da América Latina. Pode ter certeza que nenhum veículo de comunicação vai dar atenção pro motivo do protesto, só pra consequência. Você só conseguirá atrair a antipatia do povo.

4 - Pelamor!! INOVE!


Manual do bom militante

Tem pouca coisa que me irrita mais que os desmandos políticos nacionais.
Um forte candidato a superá-los é a mania do povo de protestar de acordo com uma cartilha maldita que reza os seguintes dogmas da militância, quais sejam:
§1. Todo e qualquer manifestante deverá usar preto;
§2. É conveniente misturar todas as reivindicações num mesmo protesto;
§3. Os organizadores do protesto deverão usar de linguagem adequada para o público manifestante.
#3.1 A linguagem deverá ser douta e apenas ligeiramente compreensível para as manifestações que busque o endosso popular;
#3.2 A linguagem deverá ser descolada cheias de gírias de malandrões do gueto, tal qual se vê fidedignamente retratada pelo personagem Boça ou pelos personagens de um dos bastiões da teledramaturgia brasileira, a novela Malhação, sempre que a plateia for composta por adolescentes;
§4. Todo e qualquer manifestante reconhece o portador do megafone como seu pastor e nada lha faltará no que depender deste;
#4.1 O portador do megafone tem a prerrogativa de reunir os manifestantes e revisar, em forma de monólogo extensivo ou jogral com os demais líderes.
§5. Toda reunião que protocolar um documento sobre o manifesto deverá tratar de cada minúcia do tema antes de abordar a questão principal, que geralmente é unânime.
§6. O movimento Caras-Pintadas será sempre a referência mor do movimento e seu hino será tocado ao final de qualquer ato reivindicatório
$7. Os cartazes deverão trazer os dizeres ABAIXO + motivo do manifesto. Em caso de dúvida, completar com ditadura.
§8. As cores a serem estampadas no rosto dos manifestantes deverão seguir o padrão indicado abaixo, em ordem de importância:
a)Manifesto contra corrupção e abuso de poder: Preto + cores da Bandeira
b)Manifesto contra violência: Preto + vermelho
c)Manifesto em favor dos direitos dos homossexuais: Cores do Arco-íris + Pretinho Básico
d)Manifesto em favor da legalização de drogas culturais: Preto (pode ser cinza) + Verde, Amarelo e Vermelho
e)Manifesto pela Paz: Exclusivamente Branco.
§9. É IMPRESCINDÍVEL O USO DE NARIZ DE PALHAÇO PARA QUE A MANIFESTAÇÃO SEJA RECONHECIDA COMO TAL.

Gostaria de deixar claro que defendo todas as causas citadas acima, até mesmo a última, geralmente defendida em casos de violência indisciplinada que atinge a classe média ao invés de limitar-se à população de baixa renda. Contudo, é revoltante ver como até as manifestações populares foram enlatadas e congestionaram a criatividade da manifestação política.

O mais do mesmo é extremamente prejudicial à causa defendida, que perde o apelo popular por falta de inovação, por falta de mostrar que quem está ali gritando está protegendo os interesses de uma população oprimida.
Criatividade é marca registrada de um ativismo que teve muita dificuldade de driblar a censura (mais sobre ela no próximo post). Mas hoje, ainda que as fileiras manifestos sejam formadas sobretudo por universitários das ciências humanas, é como se o vírus simbionte da classe-média alienada e pouco autônoma parece ter infectado a todos, por mais politizados que sejam.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

CQSenta lá, Cláudia

Atendendo à provocação do Russo, vou comentar sobre o prorama do Marcelo TAS.
O cara é um gênio da mídia, sabe fazer TV como ninguém. Depois do Serginho Groismam, claro.
A mais notória peripécia dele é a adaptação do Argentino CQC, de estrondoso sucesso.

Não tiro seu mérito de saber reciclar o programa dos hermanos e adaptá-lo à nossa cultura.
Se o humor faz sucesso aqui mais que tudo, que mantenhamos o humor. Se é sexo que as pessoas querem ver, que o sexo seja abordado no programa. Esculacho de políticos e estrelas, tem relativa importância, que os esculachem. São itens essenciais para a sobrevivência de um programa na TV com as pretensões do CQC. O mal do CQC, bem como da mídia nacional em geral, é não desafiar o espectador.

Em nome da audiência, uma fórmula de programa que poderia dar certo além de não evoluir vai se desgastando, caindo no óbvio. Foi assim que o humor resumiu-se aos bordões da Praça É Nossa ou Zorra Total. Com o CQC, a história se repetiu.

Quadros como o Proteste Já perderam seu caráter de denúncia de patrimonialismo para virar relatório de violência aos repórteres, com direito à chamadas durante a programação com cenas das agressões. Logo, o caráter político do programa foi se perdendo, dando lugar ao tititi de festas de ente famosa e piadinhas baratas no pior estilo Amaury Júnior. O Pânico já fazia essa bobagem há anos e pelo menos algumas nádegas aparecem entre um entrevistado e outro.

Essa queda na qualidade do programa - de seus critérios - ocorre em nome da audiência e da lógica "se eu exigir menos do espectador, mais gente consegue ver". Qualificar o espectador é muito difícil em um país cuja educação é convenientemente desprezada, mas quando não há nenhuma tentativa neste sentido, é sinal de nada de novo vai ser apresentado ali.

Há sim como falar com o público sem ser raso. O Altas Horas, às 2 da madrugada de sábado, disputando com o Cine Privé, fala de sexo com a Laura Müller. É uma forma de emancipar o povo, tão igorante no assunto.

Falar de política sem esculhambar figuras, mas explicando as ideias dos partidos seria uma tentativa de emancipação, mas isso é querer demais. Escancarar a ignorância de alguns políticos já serve. O mau-caratismo de outros também. Mas bater no Maluf, no ACM, é praxe, não conta.

Quem precisa ser escancarado, Bolsonaros, Afanásios, Dirceus, Agripinos etc são deixados na paz das entrevistas dos jornalões que os bajulam, protegem ou não conseguem alcançar. CQC fez isso no início. Não faz mais. Prestou um serviço pra população. Não presta mais.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

As esquerdas

Nao bastassem os debates dos centros acadêmicos que participei, o #atoWikileaks confirmou uma velha suspeita minha:
Falta dialética interna pra esquerda.

O debate de ontem lembrou o ainda mais antigo dilema da esquerda , divdida entre os grupos que aceitam jogar com as regras atuais - pra poder jogar também - e a ala mais dogmática (por favor, sem o tom pejorativo do termo) que prefere ser fiel às suas bases conceituais mesmo que isso a impeça de um dia chegar ao poder.

O diálogo, ao qual nos dizemos favoráveis, convenhamos, é miseravelmente falho. É comum recorrermos a um mesmo tópico exaustivamente, não por conta e respostas insatisfatórias, mas por que as soluções encontradas por aquele que responde não foram satisfatórias.

Pô, a regrado jogo para o Wikileaks era vazar pra alguém que desse visibilidadepra bagaça. Com todo respeito à Carta e à variados meios, Folha e Globo, por pior que sejam, tem maior audiência. Seguramente foi esse o critério usado.

Porque não distribuíram os vazamentos aos demais veículos? Essa pergunta foi a mais intressante, embora feita para a pessoa quenão podia responder. Mas considerando que eles só vazaram pra 5 jornalões lá fora, ter dois só aqui não é um número pequeno. Talvez seja uma questão de praticidade de mobilização de equipe, nao sei, mas sinceramente, me parece uma justificativa plausível.

Pode não ser plausível pra você, eu entendo e discuto, mas ficar horas apedrejando a Nathália Vianna por causa da escolha da Organização Wikileaks, espero quepossamos concordar neste ponto, é inútil!

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Apartheid estudantil

Na cidade de Bauru, localizada no centro do Estado de São Paulo, é cada vez mais comum a proibição do aluguel de apartamentos para estudantes. Fora isso, vários proprietários de casas se recusam a alugar imóveis a universitários.

Vamos começar de maneira radical: proibir estudantes em apartamento é o mesmo que proibir negros, pobres. Ou seja: puro preconceito.

Escutei um cidadão dizendo: "Não é preconceito. É uma situação que eles mesmos criam, fazendo baderna. Só quem mora ao lado de república sabe como é".

Não é preconceito dizer que: estudante = baderna?

Não estou dizendo que estudante não exagera. Alguns exageram sim. Fazem barulho, festas até o início da manhã seguinte. Mas se fazem isso, estão quebrando a lei do silêncio pós 22h. Daí baixa polícia na frente da casa e tudo mais.

E quanto aos apartamentos? Estudantes fazem barulho. Sim, alguns fazem. Mas se o condomínio pode colocar multas (no meu prédio a multa é de R$ 500 reais!!!) o barulho diminui. Do mesmo jeito muitos não-estudantes fazem barulhos e aprontam as suas nos condomínios. Eles só não são etiquetáveis.

Uma coisa é repreender e punir quem comete excessos. Outra coisa é simplesmente proibir alguém de entrar ou morar em um lugar porque outros da "mesma classe" (falam de classe de estudantes fosse uma coisa homogênea) fizeram bagunça.

Quem procura um lugar para morar, ao saber das regras daquele local, fica ciente do que pode ou não fazer. Mostrar o que pode ou não pode é completamente diferente de (e muito mais difícil que) proibir todos que um dia talvez, quem sabe, numa hipótese, possam vir a infringir a regra.

É a punição a quem não fez nada errado.

E mesmo quem exagera é tratado de maneira extremamente preconceituosa, como se aquele "pai de família" (e nem dá pra sabem o quão 'pai de família' que diz isso realmente é) nunca tivesse sido jovem, aprontado as suas. Como se nunca tivesse ido numa festa, ou como se no fundo, não estivesse com enorme inveja de poder trocar aquele terno por uma roupa casual e entrar na festa do "vizinho bagunceiro".


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Aliás, em Bauru começou um apelo pela recontagem da população no Censo do IBGE. Falam em 400 mil, mas o Instituto apontou 335 mil. Os bauruenses retrucam: "mas Bauru é uma cidade universitária, tem 9 faculdades... os estudantes foram contados em outras cidades".

Na hora de inflar estatísticas lembram dos universitários.

Às vezes não dá vontade de ser contado como habitante da cidade.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Salve CQC - ou não

Pergunta: O CQC é um bom programa ou já está apelando?

Quando o Pânico na TV surgiu, há 7 anos (estou ficando velho), o programa era o máximo. Parecia algo impensável um repórter fazer piadas com o próprio entrevistado. Eu assistia o programa inteiro para poder ver o Vesgo e o Sílvio cobrindo festas. Eis que uma professora minha profetizou: "Eles são ricos e engraçados. Daqui a pouco ficam milionários e sem-graça".

E foi o aconteceu. O programa ficou repetitivo, agressivo, e não saiu daquelas histórias de sandália da humildade, porrada no Vesgo e tudo mais.

Aí surgiu o CQC. Era o Pânico politizado e com mais conteúdo. As piadas não eram mais sexuais (apenas). Tinha crítica, posicionamento político, crítica social. Os deputados tinham que responder as perguntas capciosas e se não respondessem pegava mal. Rafinha Bastos, na bancada ao lado de Marcelo Tás, dava voz às piadas pesadíssimas enquanto Marco Luque era o responsável pelas piadas (nem um pouco) inocentes. Surge também o Top Five, e as mazelas da TV brasileira são expostas. Genial.

Eis que... Danilo Gentili começou a apanhar (Vesgo 2?) Tudo bem, era o ímpeto "jornalístico" pela notícia, pela entrevista. Forças ocultas agiam contra o programa televisivo. Mas depois, Rafael Cortez começou a distribuir selinhos em atrizes (Vesgo 2...).

Não dá pra dizer se a máscara caiu e dizer que de programa revolucionário, o CQC parece ter virado reacionário. Tás, durante a greve de estudantes da USP, chegou ao escrever no seu blog "Cadeia nesses vagabundos!" se referindo aos estudantes. Parecia até apresentador do Balanço Geral.

Durante a eleição de Dilma Rousseff mais uma do CQC pegou mal: "Danilo Gentili foi agredido por militantes do PT" denunciou Tás no Twitter. Absurdo, com certeza. Mas não era nada disso. Ele mesmo admitiu depois no Twitter: "Danilo Gentili foi agredido por seguranças do hotel onde Dilma estava hospedada". Segurança virou petista. Para completar, o apresentador dizia "Assistam o CQC e tirem suas próprias conclusões". É, pego mal para o CQC, pelo menos na minha opinião.

O CQC levanta diversas questões: é um programa jornalístico? Deve ter espaço numa entrevista coletiva? [vamos lembrar que os próprios jornalistas esportivos pediram a saída dos humoristas em entrevistas durante a Copa]. Alías, o que o CQC faz é jornalismo? A Revista Imprensa, em 2009 apontou os programas humorísticos com uma das causas da futura morte do jornalismo.

Bom, parece que daqui só vai sair uma chuva de críticas, mas pelo contrário. Eu adoro o CQC, acho o melhor programa da TV na atualidade e quando não consigo assistir vejo na Internet.
Acho que Marcelo Tás é um ícone do jornalismo de humor - daí pra saltar dizendo que é jornalismo eu fico em cima do muro. Se não concordamos sobre o jornalismo, garanto que entretenimento mais informativo que o CQC não há.

Na verdade, os repórteres do CQC fazem algumas perguntas muito melhores que as de outros jornalistas. A criatividade das matérias, dos assuntos e das edições acabou servindo de lição para o noticiário fraquinho que a gente via por aí. Alguns dos assuntos levantados no programa pautaram o noticiário nacional - violência de seguranças, mordaça aos humoristas são alguns exemplos.

Há quem diga que o programa ridiculariza o jornalismo e a política. Eu acho que o programa questiona e altera ambos.

E vocês? O que acham?

sábado, 16 de outubro de 2010

Quem vai limpar a bagunça?



Mesmo sendo um cara de muita fé, quando observo o panorama atual, sinto um forte desânimo. Muito a se fazer, muita sujeira, ninguém sabe como se chegou a esse ponto, nem sabe quem fez isso, quem deixou de fazer aquilo - quando sabe, deve algum favor para os culpados, e aceita o pacto de silêncio. Seja como for, ninguém toma providências para contornar a situação.

A pressão por reforma é intensa, mas já não se espera muito dos que deveriam resolver o problema, tanto que nem são mais cobrados pela solução. A sujeira vai se acumulando e a conivência nos torna igualmente culpados. Alguém reclama aqui, outro acolá, mas "é melhor não chiar muito que algum podre meu pode aparecer"!

Ficamos à espera de uma ação do terceiro setor, de alguém que se disponha a resolver tudo, gesto tão é tão raro quanto árvores paulistanas. E quando aparece alguém querendo mudar tudo, quer tudo do seu jeito, não aceita negociar, o que sugere um cenário pior do que o atual. Como ninguém tem tanta coragem pra se envolver em tamanha bagunça de graça, ficamos nas mão do setor terciário, que cobra, e caro, bem caro.

Ainda assim, espero de forma mui cristã que, em 10 anos, eu possa ver a cozinha da República em que moro sem essa pilha monstruosa de louça, talheres e fungos que se hospedaram na nossa pia!

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Uma Tropa do Barulho

O filme Tropa de Elite 2 não é exatamente a continuação do filme Tropa de Elite. É na verdade uma desconstrução do primeiro filme: Capitão Nascimento, agora Coronel e sub-secretário percebe que tudo o que havia feito - entrar em favela matando traficantes - era manter o "Sistema" (no sotaque do personagem, sissstema) que ele tanto incriminava.

No primeiro filme, há um maniqueísmo entre o policial honesto linha-dura no lado do bem e o traficante desalmado e policiais corruptos ou no mínimo negligentes no lado do mal. Agora, Coronel Nascimento percebe que não deveria lutar contra traficantes, nem contra usuários de drogas que sustentam traficantes. O problema vem de cima.

No primeiro filme há uma série de bordões jogados para o espectador. No segundo há uma série de detalhes de uma trama muito mais grave que um tiroteio ou uma invasão numa favela.

Em Tropa de Elite 2, o protagonista entra para o "Sistema" para tentar combatê-lo por dentro. Inicialmente percebe que aos poucos estava se entregando ao "Sistema", depois percebe que sempre fez parte dele. Que sempre fizemos parte dele. Matando traficante, o Capitão Nascimento não encostava em nenhum um fio de cabelo dos políticos que favoreciam o tráfico.

Tropa de Elite 2 é uma aula de ética sem citar qualquer teórico. Além disso, é uma aula de jornalismo: um dos vilões é apresentador de um daqueles famigerados programas policiais do tipo "espreme que sai sangue" que tem na televisão. Parece até uma referência ao apresentador Wallace Souza, de Amazonas, que encomendava mortes para poder exibir os corpos na TV. Outra personagem-chave é uma jornalista que vai até fundo nas investigações do tráfico aliado à política.

Aliás, política é o principal assunto do filme. "Em ano de eleição..." é a frase mais repetida pelo Subsecretário Nascimento. Tudo gira em torno de eleição. Além disso, a parte mais genial do filme é o fim da eterna dicotomia esquerda-direita. O protagonista começa ridicularizando os "intelectuais de esquerda", depois passa a depender deles. Do mesmo modo, o professor de história que casa com a ex-mulher de Nascimento começa desprezando as idéias de "bandido bom é bandido morto" do capitão do Bope, mas acaba precisando dele para instalar uma CPI. Os dois percebem que tinham os mesmo objetivos mas falavam línguas diferentes.

Na verdade, o filme rechaça o "Sistema" fazendo parte do "Sistema" - o que dizer de um filme popular cheio de patrocinadores? Cheio de telespectadores? Que em breve passará na TV Globo? Mesmo assim, o filme é o ataque perfeito ao "Sistema".

Ah, e diga-se de passagem, a escolha da música "O Calibre" dos Paralamas do Sucesso para fechar o filme foi genial.

Bom, e se Tropa de Elite virou filme da Sessão da Tarde, fica a sugestão de títulos: "Uma Tropa do Barulho" "Um Capitão da Pesada" ou até "As Aventuras de Capitão Nascimento"

sábado, 9 de outubro de 2010

desibernando

O blog estava parado há tempos, prcisava de uma causa séria pra ressucitar.
As eleições estavam muito mornas, sem um debate sério. Surgiu um.
Segundo turno rolando, minha insossa candidata disputa com uma versão geriátrica de Mark Schreck. Tudo muito previsível, motivos de sobra para o blog continuar hibernando: a queda de braço que tende a marcar os livros de história do futuro como a disputa entre os liberais privatistas tucanos e os liberais estatistas vermelhos não é exatamente uma disputa ideológica. O PT foi melhor que o PSDB justamente naquilo que mais criticava, a política de mercado. Meu voto vai para os petistas mesmo assim porque me parecem mais preocupados com o âmbito social, e acho que o PV ainda não é partido minimamente autônomo para ir pra porrada, haja vista suas alianças absurdas... haja vista o Gabeira, em especial.

Mas o PV, ainda que não tenha um capital político consolidado, conseguiu voto a rodo no primeiro turno. Um voto filho de jacaré com cobra, que reúne ativistas libertários e religiosos dos mais conservadores. E, ao contrário do que idealizam meus sofisticados amigos marineiros, é evidente que o segundo grupo é o que pesou na votação recente. Quanto pesou? Só um censo pra dizer, até as pesquisas de intenção de voto vão precisar se reformular depois desta eleição.

Seja como for, os dois candidatos, por mais vampirescos que se aparentem, apostam que conquistar os votos dos religiosos conservadores e tradicionalistas (os religiosos mais modernos estão sendo igualmente ignorados) será definitivo no sufrágio vindouro.

Quando o debate ganha importância na eleição, os militantes se destacam. Daí surge a relevâcia do organizador de campanha, que deve ser escolhido tão casutelosamente quanto o candidato a vice, por exemplo. É ele que vai responder pelo partido aos boatos de campanha, que inclusive angariaram um bom bocado dos votos que compuseram a fração verde da votação.

Pensando nisso, o PT escolheu o Ciro Gomes, experiente pólítico para tal cargo. O PSDB delegou a função à ex-petista Soninha Francine. São figuras que não possuem ligação direta com os partidos que disputam a eleição, mas que tem grande representatividade política.

O PT errou feio nessa. A campanha petista na internet está fragmentada, apesar de ter grandes figuras apoiando sua candidata, e que poderiam fazer um grande trabalho. Escoheram alguém que criticou muito a sua candidata por rancor à chapa. Ele deve ser bom de palanque, mas a unidade da campanha está fazendo falta ao partido, e ele não tem grande penetração no público mais vulnerável às campahas de SPAM, o qual , incusive, vai pesar.

Os tucanos, por sua vez, escolheram uma ex-jornalista brilhante nessa área. Sabe falar com o público jovem desde os tempos de Debate MTV, e não se engane, o programa realmente era bom quando ela apresentava. Esse é o público que alimenta a militância. E, apesar do esforço recente pra me desapontar, ainda tenho muita admiração por ela. Alguém que defende a legalização do direito ao aborto e do uso de maconha da forma honesta que ela fez merece um Nobel. Não é exageiro.

O post de retorno é um apelo. Um apelo inútil, eu sei.
Mas eu gostaria muito de ver essa mulher defender suas visões absurdamente avançadas, absurdamente progressistas, em trincheiras que pretendam realizar suas convicções um dia. Não agora, que a campanha impede imaginar até mesmo o progresso do debate. Sugerir avanços divide a população, e campanha é tempo de unir o eleitorado, mesmo que através do discurso retrógrado. Não dá pra jogar a eleição um plebiscito sobre essas questões. Seria um erro estratégico infantil, melhor deixar pra depois ... é um preço que pode ser caro, mas que não pode ser evitado.

Numa eventual vitória tucana, as idéias de Soninha seriam evidentemente abortadas. No PT, postergadas. Evidentemente não é o ideal, mas é a opinião da maioria, temos que aceitar a democrática derrota que o pensamento libertário sofreu, mas buscar espaço para reverter o placar. O PT não é um PSOL em termos de respeito às liberdades civis, mas é muito mais flexível que o PSDB, cuja base aliada conta com DEM, Veja (cujo esporte predileto, depois de tentar convencer o povo de que o PT é um braço das FARC, é entrar em contradição) e tanta gente reacionária.